quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Recomeçar

Há um dia que nos matam por dentro. Como no livro "Quando a mãe grita" em que o pequeno pinguim fica com o corpo partido e perdido no universo.

Depois com ajuda das minhas pessoas, corro o mundo a apanhar os pedaços de mim. Alguns continuam com buracos abertos. Cicatrizes imensas. Mas o corpo aparentemente junto, lá.

Hoje começa Dezembro. O João fala deste mês com uma alegria contagiante e a duplicar. "O mês do Natal e o mês dos meus anos".
Eu vivo na angústia de lhe querer dar o mundo e não me conseguir mexer, quanto mais pensar. Tenho uma festa para preparar com o homem aranha como patrono e o corpo a pedir paz.

A Maria Rita nas suas intercorrências víricas, a recuperar de uma bronquiolite. Já tivemos dias com temperaturas a 40° e banhos de água tépida para acalmar dores e medos. E temos todos os dias sinfonias de choro intenso. Comigo, sempre comigo. A minha filha colada a mim, e a chorar. E o corpo, o meu, a pedir paz.

O José, começou agora a revelar os seus segredos. Os fantasmas ali presos a um passado recente. Nos rapazes é mais comum mas menos grave e a minha esperança agarra-se apenas a estas certezas, que no coração de uma mãe (e na medicina) nunca são certezas. E o meu corpo, que é por enquanto o seu mundo, a pedir paz.

A medicação em SOS que começa a ser a fuga para dias mais tranquilos. As consultas e os exames que duplicam, que se sobrepõem a horários e doenças deles.

E a certeza, vamos sobreviver e contar como foi.

Disseram-me esta semana: "há as mulheres banais e há as super-mulheres!"

E eu desejei, por momentos, ser banal.

domingo, 20 de novembro de 2016

Unicórnios, grávidas e roupa interior

As camisas de dormir que levei para todos os partos, teimam em não aparecer. Tendo em conta que só são usadas para esse fim e como não equacionei mais partos depois da Maria Rita nascer, não sei o que lhes fiz.

Estando este ovo Kinder frágil e não querendo correr riscos, impõe-se que a mala esteja pronta com urgência. Principalmente a minha, porque se o José teimar em nascer antes do tempo não vai vestir os tamanhos de um bebé de termo que é o que tenho para lhe oferecer.

Hoje ao procurar roupa interior online, tropecei na colecção da Mr. Wonderful para Oysho. Emocionei-me. Isto foi desenhado para mim. Pena que o criador não se lembrou que estou prenha.

Às grávidas não ficam bem unicórnios pois não?

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Nunca fui princesa

Já me disseram que continuo a acreditar que posso salvar o mundo e que isso não é bom.

Recentemente ouvi que acredito que a vida é um conto de fadas, cor-de-rosa.

Eu até nem simpatizo com o cor-de-rosa, e nunca fui princesa. Fui perdendo vários sapatos ao longo da minha vida.
Nunca conheci um príncipe mas cheguei a andar num cavalo branco. Nessa altura não sabia ainda que os cavalos podem tomar a forma de ratos e os coches de abóboras.

Nunca fui princesa, nunca sonhei sê-lo. Devo ter sido princesa no mundo de alguém e muitas vezes tratada assim. Fui sempre bem resolvida e sonhadora.

A minha fé aumentou depois de ser mãe. Passei a acreditar que não conseguia mudar o mundo, mas que com amor tudo seria possível, até a cura.

Nunca fui princesa, e chamo a minha filha de boneca, quase nunca de princesa. Não quero que ela acredite em contos de fadas. Não quero que a minha filha tenha os olhos da cor do mar das caraíbas como o irmão, que fale espanhol e que dance música flamenga.
Gostava que fosse feliz, imensamente feliz, gostava que os irmãos a protegessem, e que um dia pudesse acreditar que o amor tudo cura.

Sempre fui lutadora e persistente, mas isso era quando acreditava que podia mudar o mundo. Depois a guerreira deu lugar à crente. Porque acreditar no amor não deve ser um defeito.

Acreditei e acredito que o amor possa curar a minha filha, que a doença que nasceu com ela possa ser passado. Sofro desde o dia em que o diagnóstico foi traçado e acredito que um dia ela vai ter orgulho nas cicatrizes que tem no corpo.

Nunca acreditei que vivia num conto de fadas, até porque a vida tem me deixado muitas pedras no caminho e eu não as guardo, porque sei que nenhum castelo pode ser erguido em lágrimas e sofrimento.

Nunca fui princesa. Quase nunca usei saltos altos. E mesmo no dia que podia ser princesa recusei usar véu.

Nunca pesei menos de 60 kgs, a não ser em criança. Aprendi a olhar o mundo nos olhos e a dar mais valor ao coração do que a aparência física.

Nunca fui princesa e recomecei muitas vezes, porque até a vida precisa de botão de reset. Nunca tive medo de mudanças, mesmo quando elas são repentinas.

A morte não me assusta, a minha. Vivo tranquila. Mas depois de ser mãe desejo continuar estar viva e ser o pilar dos meus filhos. Amar e cuidar deles como ninguém o saberá fazer.

Nunca fui princesa, mas tenho muitas saudades do tempo em que acreditava em borboletas, que me sentia livre e o mar me chegava para acalmar as dores.

sábado, 12 de novembro de 2016

Gravidez as diferenças

Gostava tanto de manter as fotografias actualizas, a tempo e horas. Mas é um sonho e cada vez será mais.

Aqui eram 28 semanas. Já não sei muito bem quantas temos. Sei que vivemos um momento muito difícil. 
Lutamos para sobreviver e esta batalha, meu patinho, vamos ter de a ganhar os dois. 
Quando estiveres nos meus braços e continuares a sentir tudo através de amor líquido, vou cantar para ti e vais ver que passa. Tudo passa. 

Amo-te ainda mais por estarmos a viver descontroladamente, como se o nosso o mundo fosse o cesto de uma montanha russa. 

Não sei medidas, nem gráficos nem percentis e não encontro forças para olhar para os relatórios. Mas sinto-te. O teu coração bate fraquinho, para compensar o meu. Estamos juntos. E sei que não me vais deixar morrer de desgosto. Sei que vais ancorar a tua alma, que nascerás para me salvar. 

A vida tem sempre um propósito, meu amor. Por muito mal que nos façam. Aguenta. Consegues?

Quando o sufoco passar, quando conseguirmos rir sem a mágoa no olhar, quando conseguirmos empacotar a dor, vais ver que tudo fará mais sentido.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

E agora?

O que fazer quando nos destroem?

Agarro-me aos meus filhos e choro. Choro por dentro, um grito surdo.

O que se faz quando depois do choque, o luto te percorre o corpo? Como explicas aos teus filhos a dor que eles reconhecem em cada olhar? Como proteger o ser que cresce dentro de ti, de tanta dor? Como?

Abraço-os. Choro por pensar que não vou conseguir ensinar-lhes o amor e que tudo aquilo que tenho para lhes dar não será o suficiente.

Tenho um corpo pequenino a mover-se dentro de mim. Sinto-lhe a revolta sempre que o meu coração espreme e grita. Sinto-lhe os batimentos inquietos quando as lágrimas que consigo controlar lhe apertam o peito.

Como explicar a um filho a dor? Como arranjas força para te reerguer e continuar a dar o melhor de ti?

Exactamente no mesmo dia, seis anos depois. Novamente com uma vida a crescer dentro de mim. Mas agora sem emoções. Sem atenuantes.

Sozinha, com dois filhos nos braços e outro a espernear para sobreviver dentro de mim. Sem tempo para mergulhar na banheira e tentar lavar a dor que se estranha e me leva os últimos sorrisos.

Tentas encontrar no horizonte o destino. A dor que se alastra vai seguindo a luz. O tempo deixa tudo mais leve. Mesmo na dor.

Escolhes o verbo. Repensas a divisão e começas a subtrair. Sem regras de concordância, com palavras esdrúxulas e um coração fraccionado. Há um dia que tudo acaba. A linha chegou ao fim.

E agora?

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Um camião-tir muito sensível

A minha menina é uma flor campestre. Forte e delicada, determinada e sensível, enérgica e meiga, histérica e especial.
Consigo ter na mesma pessoa várias personalidades: a menina-doce, que me enche de beijos, que é sensível e feminina, capaz de controlar as emoções e nem um "ai" diz mesmo que a magoem; a menina-camião, que corre e joga à bola, que trepa e grita, que faz birras, que detesta ser contrariada que bate e se atira para o chão.

A minha menina é um camião-tir com atrelado em casa, mas fora de casa uma lady e não borra a pintura.

Tem muitas parecenças físicas comigo. Cada vez mais. Mas é claro que há quem consiga ver nela o pai, a tia-avó-zarolha e um primo em terceiro grau manco.

A Maria Rita é tão especial que tem um molar a nascer (já com uma ponta de fora) e nada de caninos. Este está a nascer na altura prevista, os outros é que não estão a cumprir os prazos, entenda-se.

Esta miúda vai-me ensinando muitas coisas. E às vezes dou comigo a pensar que tem mesmo características de "irmã do meio". O karma é tramado.

Tem dias em que é muito difícil lidar com ela e nesses dias imagino como será aos 18 anos em dia de TPM e fico logo a tremer. O pai que tanto queria a menina que a ature, se estiver por cá.
O problema é que ela só quer a mãe, esqueçam lá a teoria que as meninas só gostam do pai. É tão verdade como a azia na gravidez significar bebés cabeludos e o "outro" ter sobrevivido um mês a comer nozes e castanhas.

A minha menina perfumada, o meu docinho de morango, está a crescer e sinto que em janeiro me vai parecer enorme. 16 meses já passaram e eu sinto que fez sempre parte da família.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Para ti José

Querido José,

Sei que não tenho sido uma mãe muito presente, a vida não me deixa muito tempo para respirar, para te imaginar e para te dar toda a atenção que mereces, mas sei que és um bebé forte e lutador.

Escolheste-me e eu chamo-te o meu patinho*. Mesmo que sejas preto de carapinha loira, mesmo que nasças antes do tempo e pequenino, mesmo que os dias em casa sejam tudo menos tranquilos (como um bebé merece), vou-te amar como só uma mãe ama um filho.

Nem todos saberão o que o verbo amar representa para uma mãe, nem mesmo algumas mães saberão o que significa o meu verbo amar, mas o importante é que vocês saibam e sintam. Que um abraço meu seja sempre mais gratificante do que qualquer medicamento, presente ou doce.

Gostava muito que fossem os três manos muito amigos. É o meu maior desejo. Que se respeitem e se amem, que saibam dar as mãos e alegrar-se mesmo quando a vida for madrasta, que consigam ser o norte uns dos outros quando eu não estiver por perto ou já não estiver por cá. Que consigam ensinar ao pai o que é amar um irmão, o que é partilhar, correr e atender um telefone porque do outro lado um mano precisa de nós.

Querido José, não vai ser fácil ser o mano pequeno nesta casa. Sei que vais continuar a ser forte e lutador, como já o revelaste, que vais ser determinado e independente. Sabes filho, isso também é muito cansativo, desgastante e injusto. Mas não te revoltes meu amor, encontra dentro de ti tudo o que não receberes dos outros. Não esperes o que nunca vais conseguir ter, mas não deixes nunca de sonhar. Porque dentro de ti, cabem todos os sonhos do mundo, mesmo os impossíveis.

Chora sempre que precisares, porque os homens também choram e não é por isso que são fracos. A força não se mede pela quantidade de sal que desliza no nosso rosto em cada gota de suor, a força mede-se pela quantidade de vezes que sorrimos para a vida mesmo quando ela nos abandona, pela quantidade de vezes que caímos e nos levantamos, pela capacidade de amar mesmo que do outro lado tudo pareça cinzento, um muro de pedra sem sentimento.

Mesmo que não pareça, vou estar sempre de braços abertos para ti meu amor. E farei o possível para que te sintas sempre tão amado e desejado como mereces.

Beijo,
A mãe

*Todos os meus filhos são para mim o equivalente a um animal, não se assustem pessoas perfeitas.
O João é o meu macaquinho, inteligente, alegre e muito palhacinho (e ele adora), a Maria Rita é a minha ratinha, esperta, lutadora, rápida, perspicaz (ainda não demonstra se gosta da alcunha, mas sorri).
O José será sempre o meu patinho, aquele que apareceu na fila sem eu saber de onde veio, mas o que tem o coração um coração de ouro e me conquista todos os dias de forma arrebatadora.

sábado, 29 de outubro de 2016

Sair do armário

É nos momentos de desespero que muitas vezes tomamos decisões. Mais ou menos acertadas, um impulso que nos faz ter coragem para resolver alguma coisa que se arrasta. Pode correr bem, pode correr mal.

O que eu sinto, é que nos últimos tempos, na minha vida, tudo se tem precipitado de forma tão catastrófica que a solução acaba por ser preto no branco, do dia para a noite. Sem tempo para reflexões profundas ou indecisões.

Ao contrário do João que foi sempre uma criança muito fácil para dormir, a Maria Rita é/era uma tormenta. Passei do céu ao inferno e houve momentos em que não me reconheci. 

Nunca pensei passar por momentos assim. A privação de sono é muito má durante dias ou semanas, mas meses, começa a ser completamente desolador.

E o pior de tudo é que a vida continua. Podia parar ali, naqueles 15 minutos que dormes e até já começas a achar que é bom e gratificante.

Passei por momentos em que me senti enlouquecer. Poucas pessoas com quem pudesse falar ou partilhar o cansaço extremo, até porque não queria ouvir o que tinham para me dizer (já basta quando ouço o que não quero a quem não perguntei ou pedi opinião).

Há muito tempo que andava a tentar ler um livro sobre o treino do sono ("10 dias para ensinar o seu filho a dormir"). Mas não sei se estava mesmo desmotivada ou se o cansaço era tal que não conseguia concentrar-me e/ou motivar-me para a leitura. Por este motivo durante dois meses consegui ler umas 10 páginas ou  pouco mais.

Na semana passada, após uma noite terrível a acordar de 15 em 15 minutos (duvido que tenha dormido entre os despertares nocturnos com gritos e choro) percebi que tinha que fazer alguma coisa por mim, por nós. Apesar do cansaço e das várias horas em jejum no meio de 3 colheitas de sangue para a prova de glicose do segundo trimestre, consegui motivação extra para ler o livro até à parte mais importante: a prática.

Tinha intenções de aplicar o que estava a ler quando o pai viesse na visita mensal (sim, o pai ainda continua por lá). Para ter algum apoio no caso de as coisas correrem muito mal (nos meus sonhos maus, a coisa corre mal quando me rebenta a bolha e eu estou sozinha com duas crianças, entenda-se!).

Mas nessa mesma noite, depois de meia hora com 10kgs de boneca ao colo a embalar e adormecer, deito-a na cama dela e no mesmo segundo levanta-se e começa a rir e a falar como se já tivesse dormido uma bela soneca.

Eu que estava cansada até ao tutano e depois de um dia mau, muito mau. Disse para mim "acabou, a partir de agora tolerância zero e não há desculpas".
Expliquei calmamente à Maria Rita que ia ser uma noite difícil para as duas, mas que depois disso tudo ia correr melhor e íamos estar muito mais felizes. 

A ideia era que ela adormecesse na cama dela, sem ajuda. Eu estaria sempre ali, sempre presente para acalmar e mostrar que ela conseguia, sem medos.
1h30 depois a Maria Rita tinha adormecido sozinha. Depois de rir, bater palmas, cantar, levantar-se e deitar-se 500 vezes, voltava a levantar, mais um abracinho à mãe, mamã 1000 vezes seguidas, lambidelas na minha cara em forma de beijinho e por fim plof, adormeceu.

Nessa noite os despertares nocturnos foram mais tranquilos, sem gritos e mais curtos.
Na noite seguinte demorou 15 minutos a adormecer sozinha.
Na terceira noite demorou meia hora, porque o irmão interferiu na hora de deitar.

Os despertares nocturnos melhoraram substancialmente, ao acordar e durante o dia tinha uma menina muito mais feliz e bem disposta.

Mr. Rabbit chega e nesse mesmo dia eu tinha reunião na escola do João depois de jantar. Deixo os filhos com o pai e prometo não fugir para parte incerta (sim, às vezes também me passa isso pela cabeça!).
A instrução que deixei foi que a menina não podia adormecer no colo.
Ultimato sério e em tom de ameaça antes de sair de casa: "Aconteça o que acontecer não pegas nela ao colo."
Havia excepção: só se vomitar ou desmaiar.

Quando consegui enviei mensagem a perguntar como estava a correr. Resposta: adormeceu num minuto.

Há dias em que adormece mais rápido, outros que demora mais. Tal como nós, certo? A verdade é que há 10 dias que a Maria Rita não adormece ao colo. Há 10 dias que ela dorme sozinha sem bengalas. Os acordares nocturnos são pouco frequentes, e menos dolorosos (resolvidos num segundo ou na pior das hipóteses num minuto).

Acho que posso respirar. Acho que a minha filha saiu do armário, ou melhor, saiu-me do colo e passou a saber o que é dormir.

Claro que continua a haver muito mimo e colo e embalo, mas não para dormir. Às vezes quando chega da escola vem com tantas saudades de mãe que nem quer dormir. 

Nesses dias a sesta do final da tarde é mais complicada e muitas vezes salta para o jantar.
Há rotinas, muitas, mas sempre em função da vida familiar e também dos horários do irmão. Vamos fazendo ajustes, sem nunca quebrar a promessa: não adormecer ao colo.

O José agradece, e o meu útero também, é que isto é elástico até deixar de ser....

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Memórias

Há alguns anos atrás escrevia estórias e partilhava num outro blog. Sim "estórias" assim.

Hoje nao foi um dia bom e fui reler algumas dessas estórias.

Deixo aqui a última estória que escrevi em 2010.

Ano novo

Precisamente na primeira noite do ano, ela tomou banho, hidratou a pele, colocou a sua melhor lingerie, a camisa de seda e um roupão perfumado.
Estava cansada, pesava-lhe o corpo, pesava-lhe o medo do amanha.
Esta era a sua última noite.
Colocou os comprimidos sobre a mesa e foi tomando um a um, com calma.
Sem medo, sem dramas, sem lágrimas, "descanso eterno" o que vem escrito nos cartões das flores dos funerais.
Sim, era mesmo, descanso eterno pensou ela ao tomar o último comprimido.
Levantou-se colou o bilhete no espelho da casa de banho e deitou-se no sofá.

O dia amanheceu risonho. O sol brilhava como já não havia memória. Um dia de Primavera, diria ela se estivesse acordada para o sentir.
Ele acordou cedo, vestiu-se e sem lavar a cara ou tomar o pequeno almoço saiu para mais uma das suas aventuras desportivas.
Ela dormia profundamente no sofá.

O suor corria-lhe ainda no rosto. O sangue quente, as veias dilatadas, o corpo cansado. Chegou com pressa e quando se dirigiu para a duche leu em silêncio o bilhete colado no espelho: "Quando leres esta mensagem, já não estarei aqui. Fui finalmente viver!"

Pensou que era mais uma das muitas mensagens de delírio que ela lhe escrevia, preparava-se para a guardar na gaveta pequenina, onde tinha guardado todas as outras, mas regressou à sala e ela permanecia a dormir.

Ela nunca pensou que estaria a julgar com este acto o maior culpado da sua morte. Pensou apenas na sua libertação.
Ele esteve três dias sem conseguir chorar, preso às últimas palavras que tinham trocado. Assassino da mulher que dizia amar. Sem saber morreu naquele dia. Abriu os mais de 30 bilhetes guardados em silêncio e chorou, gritou e entregou-se à sua culpa.

Uma década passou. A vida não seria a mesma, ela teria hoje 40 anos e uma filha de 10 se tivesse aguentado viver no porão da condição humana. A filha que levava no ventre teria o sorriso da mãe e seria a alegria da sua vida.
Ele ficou encurralado nesse mesmo ano. A barba cresceu e ficou para sempre branca, agora amarelada pelo tempo que secou junto com todo o mal que deixou acontecer a cada minuto.

domingo, 16 de outubro de 2016

Das músicas do Agir para a sala de aula

Eu tinha prometido escrever sobre a reação do João à nova professora.
E precisava de o fazer, para não entrar numa espiral decadente. Se eu fosse escrever sobre o que sinto (no corpo e na alma), isto seria um diário sofrido.

[Vamos lá a isto que o cardiologista mandou-me cantar.]

O João, neste seu [curto] percurso escolar, estava habituado a ter professoras lindas ou feias, roliças ou esbeltas, mas "normais", sem grandes produções ou indumentárias fora de série (com excepção para os dias de festa).
Até porque, estas professoras, deviam saber para o que iam, lidar com (tantas) crianças não deve ser propriamente o mesmo que trabalhar ao balcão de uma perfumaria, por isso o melhor é levar o cabelo apanhado para não parecer que se viu o lobo passado 5 minutos.

No final do primeiro dia (com a professora nova) perguntei-lhe como tinha corrido e se tinha gostado.

João - tudo bem mãe, mas sabes, a minha professora piiiiinta-se!!!!
Eu - ai sim? [Raio do miúdo sai mesmo ao pai, observador, estive na sala 5 minutos durante a reunião e não reparei em nada]
João - pinta os lábios e os olhos. Sabes mãe? Como na música do Agir.
Eu - a do Makeup?
João - sim.

Depois disso foi reparando na cor dos sapatos e vai-me relatando as cores, mas na sala de aula troca por uns mais "pequenos" (o tacão, entenda-se).
Na semana passada dizia-me admirado: "mãe, hoje os sapatos eram pretos!" Como se duvidasse que esta cor existisse no closet da nova professora (entre o amarelo e o vermelho, o preto pareceu desiludir!).

Eu que não me aguento mais de 5 minutos em cima de uns tacões acho que isto revela uma força de vontade excepcional. Porque quem aguenta atravessar aquelas ruas em paralelo, em cima de um tacão de 10cm, seja qual for a cor, aguenta 23 putos com a mania que são engraçados a fazer agachamentos com a letra "i" e levantamento de pesos com o "u".

Viva as professoras com coragem de fazerem diferente, mas eu gostava mais que o fossem dentro da sala, que reinventasse os currículos e a escola tradicional, isso sim, merecia um desfile com sapatos tigresa!!!!

E eu juro que até repetia a personagem da Brísida Vaz de Gil Vicente, que tanto sucesso fez no meu tempo de menina de escola.

domingo, 9 de outubro de 2016

1001 noites [ou quando o inferno desce à terra]

Num dia bom, às 21h30 consigo ter os dois prontos para os deitar.

Ele adormece mais rápido ou mais devagar, consoante a agitação, cansaço ou estado de espírito.
Com ou sem pesadelos dorme normalmente a noite toda, não acorda com a irmã e de manhã o despertar é forçado (principalmente nos dias de semana).

Ela depende. Depende não sei bem do quê, mas depende sempre de mim. Depende de mimo e embalo. Depende de colo e algumas viagens para a frente e para trás no espaço livre à volta da cama. Depende de mãos dadas e às vezes um "shiuuuuu vamos dormir". Depende das dores, das birras, dos medos e de lembranças mais antigas ou mais recentes que se transformam em cenário para início de noite mais ou menos tranquilos.

Aos 15 meses só me lembro de uma noite em que ela dormiu seguido, sem interrupções das 21h às 7h, e ainda foi preciso acordá-la de manhã. Tinha 13 meses e foi na véspera da cirurgia ao rim.

O padrão das últimas semanas tem sido bem diferente. É o padrão "sino da igreja", só ainda não percebi qual a oração que nos libertará deste inferno, é que eu nunca fui muito fã de acordar com os sons típicos da aldeia, os galos a cantar, os chocalhos a tilintar e o sino da igreja a badalar de hora em hora.
Como tudo se paga nesta vida, quis o meu destino que vivesse rodeada de galos que cantam a noite toda, de vacas que, com ou sem chocalhos, se passeiam por perto e transformam as madrugadas em  noites pouco tranquilas e o meu sino particular que, mais ou menos certo, lá vai tocando.

Ignorando qualquer oração, rotina ou programação o "meu sino" toca de hora em hora, às vezes de duas em duas, ou de meia em meia hora. Sem norma. Mas cada vez mais rotineiro. Há dias que tento ignorar o toque, não por maldade, mas porque o corpo já não me permite, e aí a cena pode ser mais profunda, os gritos mais sentidos e às vezes até se batem palmas, como que a dizer "ó de casa, está aí alguém???"

Achava eu que o João tinha sido uma criança difícil, mal sabia eu para o que estava fadada (não me enganei nas vogais, mas estou mesmo!).
Em 15 meses de vida a Maria Rita já me deu noites piores do que em quase 6 anos do João.
Já sei que ainda posso engolir isto tudo e o rapaz ser um adolescente problemático que me foge pela janela a meio da noite e se mete em cenas esquisitas, e ela pode ser a marrona, certinha que tenho de obrigar a sair com as amigas para conhecer o mundo, mas por enquanto é ela o "meu sino" e confesso, já perdi a fé.

Tudo bem, ontem era o drama do regresso à creche, depois uma gastroenterite, depois a última dose da bexsero e ao mesmo tempo 30 dentes a romper naquelas gengivas durinhas em simultâneo, mais o mau feitio e uma predileção para a gritaria próprios do mulherio. Chega de desculpas. Já deixei de querer uma resposta e irrito-me profundamente quando me perguntam "o que é que ela tem?!".

O que ela tem não sei, fala chinês a gaiata, só lhe consigo apanhar o "mamã" agarrada às minhas pernas aos soluços.
Mas sei bem o que eu não tenho. Não tenho descanso que seria fundamental nesta fase da minha vida. Mas também já sei que a culpa disto tudo é minha e que eu sou uma cabra, uma egoísta e só estou a ter aquilo que mereço.


Sem pretensões de alcançar o título de "super mulher", e sabendo que sou uma mãe muito imperfeita, por estes dias, com os níveis de cansaço no máximo, cedi e não fiz por esconder dos meus filhos.
Desabei. Sentei-me no chão e chorei. Chorei muito. Um choro profundo que vem das entranhas, de quem deixou de acreditar, de quem percebe que nada cura e nada passa, não naquele momento, naqueles minutos que tudo o que precisas é de paz.
Do outro lado não estará ninguém para te abraçar ou aliviar a alma, que te adianta ser perfeita?
Não há um adulto que te possa render. Não há uma noite em que digas "hoje és tu". Não há. Não há nada.
E deixei de ter ilusões. Deixei de acreditar. Talvez seja por isso que o sino toque, para me lembrar que só posso mesmo contar com eles, sejam quais forem as orações.

No meio de uma tristeza sem fim, tive quatro mãozinhas coladas à minha cara. Que me obrigaram a levantar, a arregaçar novamente as mangas e a sorrir. E por isso passar da tempestade à bonança também é possível, só porque eles existem!

[Imagens: Pinterest]

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Bye-bye bidente

A vidente que morava cá em casa abandonou o corpo da minha filha e deu lugar a uma tridente safadinha.

É sabido que os primeiros dentes da Maria Rita romperam uns dias depois dela completar os 12 meses. 

[As coisas que fomos ouvindo, nem vale a pena repetir, porque muita estupidez junta não produz grandes verdades filosóficas.]

E durante quase 3 meses a "bidente" mais gira do pedaço teve tempo para todas as profecias: começou a andar (aos 13 meses), é muito jeitosa a varrer e a tirar a louça da máquina, abrir armários e tirar tudo lá de dentro também é uma especialidade e se lhe der um paninho para a mão ela limpa e depois esfrega a sua própria cara e cabeça.

Esta "bidente" tem tanto de doce e sentimental (nunca vi criança a chorar tanto, juro!) como de camião-tir, passa por cima de qualquer obstáculo e leva tudo à frente, anda, corre, cai e levanta-se, normalmente só reclama se bater com a cabeça ou se o irmão a agarrar. Arrasta bancos, e atira brinquedos, imita o som dos carros e das motas, adora brincar com bolas e já faz birra com direito a cabeçadas e a rebolar-se no chão.

Maravilhoso este mundo das meninas. Da histeria que eu dispensava ao doce "mamã" acompanhado de abraços demorados.

Uns dias antes de completar os 15 meses reparei que um dente de cima estava a romper. 

Já furou. Habemos tridente. 

O dente deve ser de marfim, de um branco imaculado, mas tem uma largura que equivale bem a dois lugares de garagem com arrumos.

Este fim-de-semana consegui constatar que um dos incisivos laterais superiores já está também a romper, contrariando a ordem lógica de nascimento dos entendidos em dentes.

Por este andar é provável que na próxima semana já tenha a dentição de leite completa.

Nesta fotografia o dente ainda só estava a dizer olá. Agora já consegue brilhar no escuro. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Gravidez - as diferenças

Em fevereiro de 2015 escrevi sobre as diferenças entre a gravidez do João e da Maria Rita.
As duas planeadas, com as datas na ponta da língua, medidas e afins. Por incrível que pareça, e mesmo que tenha passado pouco tempo desde a gravidez da Maria Rita, sinto que me esqueci de quase tudo: nunca sei quando tenho de fazer as ecografias e as análises dos trimestres, não me recordo de pesos, tamanhos e a idade gestacional tem sempre de ser confirmada no telemóvel (normalmente as pessoas ficam ofendidas quando digo que não sei ou que vou confirmar, mas atirar um número para o ar não é muito o meu forte).

Esta gravidez não foi planeada. Não há DUM (Data da Última Menstruação - não sei o que isso é desde Setembro de 2014), que para quem não sabe é usada para todos os cálculos durante a gravidez, não estava a tomar Ácido Fólico e descobri que estava grávida por acaso, a fazer exames de rotina e a excluir uma possível doença no sistema reprodutor (ahahahahahahaha, podem rir comigo que acho que chorei tudo nas semanas seguintes).

Gostava muito de fazer comparações, de olhar para os boletins de grávida e descobrir semelhanças, mas é provável que não encontre o meu boletim actual na carteira, quanto mais os anteriores.

Gostava muito de vos dizer que estou fresca como uma alface e com vontade de ter um rancho de filhos. Vamos ficar apenas pela vontade (e pelos treinos), porque isto não está fácil.
Vou contar-vos um segredo: acho tanta, mas tanta piada quando as pessoas me dizem que estou com ar de cansada. A sério? Pois, até me esqueço que tenho uma vida de princesa e homens semi-nus a tratar-me de tudo, não se percebe.


Vou fazer um esforço pelo José, para ele não sentir que é o patinho feio desta família.

        

8 semanas
João: fim de Maio; 30 anos; enjoos, vómitos, o primeiro sinal foi com o cheiro da areia dos gatos, não conseguia beber café e manteve-se quase toda a gravidez.
Maria Rita: fim de Novembro; 10 kg a mais do que em 2010 (no início da gravidez do João); 34 anos; enjoos, vómitos, o primeiro sinal foi com o cheiro de laranja e tangerina, não conseguia beber café, melhorou no 2° trimestre.
José: fim de junho; 36 anos; ligeiras náuseas matinais, o primeiro sinal foi na cadeira da obstetra e ia tendo um enfarte, não tive reacções ao café ou outros alimentos e suporto o cheiro a cocó dos meus dois filhos sem cair para o lado.

12 semanas
João: tinha aumentado 1 kg; rastreio negativo; ecografia 1° trimestre compatível com idade gestacional; não imune à toxoplasmose.
Maria Rita: tinha aumentado 0,5 kg; rastreio negativo; ecografia 1° trimestre compatível com 11s (uma semana a menos); não imune à toxoplasmose.
José: tinha aumentado uns 4 Kgs; rastreio negativo; ecografia 1º trimestre compatível com 13s (mais uma semana do que se previa nos primeiros cálculos); não imune à toxoplasmose.

18 semanas
João: tinha aumentado 3kg; não há registo da altura uterina; estávamos em agosto e tinha a TA a 9/7; ferro com AF; sangrava muito do nariz; peso bebé - 272gr com 18s+3d.
Maria Rita: tinha aumentado 1,5 kg; altura uterina às 18 semanas equivalente a 22 semanas; TA normal; vitaminas, ferro e cálcio; coágulos de sangue no nariz e sangramento frequente; peso bebé - 184gr com 16s+3d.
José: tinha aumentado 5 Kgs; altura uterina às 18 semanas equivalente a 14 semanas; TA normal; vitaminas, ferro, cálcio e magnésio; sangrar pelo nariz e gengivas mais sensíveis: peso bebé 243gr com 18s.


Sobre o sexo
João: 28 Junho - 13 semanas (menino)
Maria Rita: 27 Janeiro - 16 semanas (menina)
José: 29 Agosto - 18 semanas (menino)

Barriga (foto)
João: já estava com 21 semanas (talvez mais)
Maria Rita: 19 semanas
José: 19 semanas

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Maria Rita - de volta à escola

Então e a Maria Rita também vai à escola? Sim.

Foi um início um pouco atribulado, por questões diferentes das do João.

A Maria Rita já tinha andado 3 meses no berçário, mas por questões de saúde teve de sair.
Passou a estar 24 horas comigo. Esteve bem, de saúde. Evoluiu e fez-se (ainda mais) regateira.
O elo tornou-se ainda forte. O pai foi trabalhar para fora, o irmão saía para a escola e ela ficava muito esporadicamente com os avós (umas horas).
Dias e dias seguidos as duas. Conversas, brincadeiras, noites sem dormir, experiências com comida e muitas gargalhadas, cantorias e danças.

[Sim, a Maria Rita só tem dois dentes e não diz palavra nenhuma de jeito (para além de mamã) e já se sabe que a culpa é minha!!!!]

Nunca fiz muitos planos. Sabia que um dia teria de arriscar a normalidade. Mas sem pressa. Entretanto os médicos decidem operar, eu engravidei e ela desmamou por decisão sua no dia em que completou os 13 meses.

Um pós-operatório relativamente tranquilo para ela, mas o meu útero começou a dar sinais de alerta.
Começamos a ponderar integrar novamente a Maria Rita na creche.
Os médicos dão o ok, o optimismo é generalizado entre os médicos que acompanham a doença crónica da Maria Rita.

A andar desde os 13 meses e meio. O regresso à mesma escola, agora na sala de 1 ano. A minha menina. O meu docinho.
Foi de mão dada com o mano. Tentou voltar para trás ao reconhecer o lugar. E chorou.
Chorou para ficar. Chorou quando a fui buscar. E os dias repetiam-se.

Eu ficava com o coração a gritar. Fazia-me de forte, deixava depois o João na escola e chorava até me obrigar a distrair. Comprava pão, iogurtes, fraldas e toalhitas. Renovava o guarda-roupa dos dois e tentava descansar.

Nos primeiros dias menos tempo. Sempre a contar as horas para ir buscá-la e o peso, a culpa, a dor de não estar a fazer o melhor pelos meus filhos.

Mas e este filho? E se acontece alguma coisa e tenho de ficar internada? Meses? A força voltava aos poucos. Vamos vivendo.

Duas semanas depois e o choro começa a reduzir. A mudança de colo é o momento mais problemático mas passa rápido. Dou-lhe sempre um beijo, um abraço e digo que a vou buscar depois do lanche. À tarde também já não chora tanto quando me vê e já dei com ela a brincar e a reclamar brinquedos com os novos amigos.

As noites voltaram a ser caóticas. Nunca foram calmas (a Maria Rita dorme muito mal), mas neste momento começo a sentir que começou o estágio de preparação para o parto.

Há dias que me sinto a enlouquecer. Mas ser mãe é um bálsamo, quando os gritos acalmam, as respirações sincronizam e a terapia do abraço resolve (quase) todos os males.

A minha menina está a crescer. E eu que sempre tive tantas teorias sobre o filho perceber agora que a Maria Rita tinha mesmo de ser a filha do meio. O karma é tramado.


O João está a gostar da nova escola, dos amigos e da professora*. Muito motivado, responsável  e aplicado. O João parece ter nascido para isto, parece que vagueou estes anos para conseguir começar esta aventura. E eu gosto de o sentir feliz!

*Fica para outro post as reações à professora (do filho e do pai).

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Início do ano letivo

Setembro começou e tal como costumo dizer, este é realmente o meu início de ano (sim, para muitos é na passagem de ano, para outros no aniversário, para mim é setembro).

Setembro começou e este ano foi difícil caramba! Não bastava que a vida me trocasse as voltas com uma criança, uma bebé e grávida, sozinha, ainda tenho de surfar sozinha em marés incertas e cheias de truques e muitas partidas.

Como já o tinha dito, o João faz parte daquele grupo de crianças (uns mártires, digo-vos já!) que faz anos após 16 de setembro.
Tal como diz a lei, (o novo despacho não alterou estas regras) só as crianças que completam 6 anos até 15 setembro têm entrada obrigatória no 1° ciclo.
E eu não sou nada fundamentalista em relação a isto, tentei sempre perceber em que fase o João se enquadrava e ia gerindo o melhor para ele. Também já aqui falei que atrasei a entrada dele no pré-escolar porque entendi que não tinha maturidade e que seria um crime abolir a sesta, por exemplo (continuo a achar a privação de sono uma aberração em crianças tão pequenas, mas não é fácil contornar esta situação no ensino público).

Eu até nem me importava que ele ficasse mais um ano no pré-escolar, sou sincera, na verdade o João vai ter meninos quase um ano mais velhos (os de janeiro) na mesma sala. Mas a professora, a médica e a psicóloga, sempre me disseram que seria pior retê-lo nesta fase. Pois é, nem todas as crianças ficam preparadas no dia que fazem os 6 anos e depois há os que mesmo não tendo os 6 anos apresentam sinais evidentes que estão aptos. E o que eu não entendo é que a lei seja tão castradora.
O João é uma criança normal. Não é sobredotado, não sabe línguas e o teorema de Pitágoras, ainda não leu Os Lusíadas (mas sabe quem é o Camões), sabe os dias da semana e conta os números de trás para a frente, mas  escreve em espelho letras e números. O João não decora nada que não goste, sabe rezar ao "anjo da guarda" porque acha que é uma lenga-lenga, faz contas de somar e subtrair (com ajuda dos dedos), e sabe ler algumas palavras (por grafia). Reconhece o nome dele ao longe e escreve-o desde os 3 anos.

Nas listas de final de julho, o João entrou na primeira opção da escola básica do 1°ciclo. Uma mudança de agrupamento, a pedido dele (essa criança de 5 anos tão imatura e sem capacidade para gerir emoções) e ditada pelas circunstâncias do agregado familiar. Estas deveriam ser as listas finais, mas na verdade nunca foram afixadas listas provisórias (um pormenor). Em Agosto recebo um telefonema do agrupamento, a informar que o João tinha passado para a segunda opção, porque tinha havido um problema com as listas anteriores.

Li a legislação de trás para a frente, voltei a ver as listas, a comparar, a tentar perceber. Ouvi os argumentos do agrupamento e tentei enquadra-los na legislação e percebi que valia a pena comprar a guerra. Principalmente quando há professores-doutores (aqueles cujos títulos são dados nos corredores para o wc mas que nunca terão competências profissionais e pessoais para assumir tal título) que te dizem: "o seu filho tem 5 anos não tem o direito a entrar no 1° ciclo, devia estar na pré". E tu enches o peito de ar e respondes: "o meu filho teve a infelicidade de nascer em Dezembro, mas vai entrar certamente no 1°ciclo, nem que seja noutro agrupamento ou até mesmo em ensino domiciliar".

Este ano o ministério da educação afixou o intervalo para início de ano entre 8 a 15 de setembro.
A luta durou mais de um mês e a resposta chegou na véspera da escola começar, no dia 13 de setembro.

A luta do João, que foi minha (grávida e com uma bebé recém operada, sempre numa montanha russa, sozinha num barco sem leme, a remar contra as direcções mais incertas) teve o desfecho desejado. O João foi novamente integrado na primeira opção.

Podia acabar aqui esta história? Podia, mas isso seria no mundo ideal.
A escola começou. Começou? Não, não começou. A escola abriu as portas e as crianças do 1° ano não têm professor. E não há funcionários (auxiliares) a dar apoio na escola.

Boa maneira de começar a tão desejosa caminhada, 23 crianças espalhadas alegremente por outras salas de aula e a começar a aprender que o mundo é uma selva e vão ter de arregaçar as mangas. É assim que se cresce!
Entrei para a primária na década de oitenta (ou oitchenta como diria o outro), numa altura em que havia muitas crianças e não me lembro de haver este circo!)

Eu vou continuar a lutar pela escola pública. Mas isto de dar autonomia aos agrupamentos deixa-me louca, porque a proximidade das populações não traz sabedoria mas sim muita incompetência.
Eu vou continuar a lutar pela escola pública, mas podem acreditar que se me saísse o Euromilhões eu não me matava a ser justa e a querer salvar o mundo, dedicava-me apenas a ser feliz, que já dá muito trabalho.

Boa sorte filho, apesar dos teus 5 anos, sei que vais fintar as adversidades muito melhor que os adultos que teimam em fazer regras muito próprias, sem olhar para os lados, apenas para o próprio umbigo.

Hoje, segunda-feira, quando o deixei na escola já havia professora e pedia aos pais para entrar na sala para reunião. Sem pré-aviso ou reserva, que isto de ser pai/mãe é para quem quer e não para quem pode.

Para breve as cenas dos próximos capítulos e o início do ano lectivo da Maria Rita.