segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Início do ano letivo

Setembro começou e tal como costumo dizer, este é realmente o meu início de ano (sim, para muitos é na passagem de ano, para outros no aniversário, para mim é setembro).

Setembro começou e este ano foi difícil caramba! Não bastava que a vida me trocasse as voltas com uma criança, uma bebé e grávida, sozinha, ainda tenho de surfar sozinha em marés incertas e cheias de truques e muitas partidas.

Como já o tinha dito, o João faz parte daquele grupo de crianças (uns mártires, digo-vos já!) que faz anos após 16 de setembro.
Tal como diz a lei, (o novo despacho não alterou estas regras) só as crianças que completam 6 anos até 15 setembro têm entrada obrigatória no 1° ciclo.
E eu não sou nada fundamentalista em relação a isto, tentei sempre perceber em que fase o João se enquadrava e ia gerindo o melhor para ele. Também já aqui falei que atrasei a entrada dele no pré-escolar porque entendi que não tinha maturidade e que seria um crime abolir a sesta, por exemplo (continuo a achar a privação de sono uma aberração em crianças tão pequenas, mas não é fácil contornar esta situação no ensino público).

Eu até nem me importava que ele ficasse mais um ano no pré-escolar, sou sincera, na verdade o João vai ter meninos quase um ano mais velhos (os de janeiro) na mesma sala. Mas a professora, a médica e a psicóloga, sempre me disseram que seria pior retê-lo nesta fase. Pois é, nem todas as crianças ficam preparadas no dia que fazem os 6 anos e depois há os que mesmo não tendo os 6 anos apresentam sinais evidentes que estão aptos. E o que eu não entendo é que a lei seja tão castradora.
O João é uma criança normal. Não é sobredotado, não sabe línguas e o teorema de Pitágoras, ainda não leu Os Lusíadas (mas sabe quem é o Camões), sabe os dias da semana e conta os números de trás para a frente, mas  escreve em espelho letras e números. O João não decora nada que não goste, sabe rezar ao "anjo da guarda" porque acha que é uma lenga-lenga, faz contas de somar e subtrair (com ajuda dos dedos), e sabe ler algumas palavras (por grafia). Reconhece o nome dele ao longe e escreve-o desde os 3 anos.

Nas listas de final de julho, o João entrou na primeira opção da escola básica do 1°ciclo. Uma mudança de agrupamento, a pedido dele (essa criança de 5 anos tão imatura e sem capacidade para gerir emoções) e ditada pelas circunstâncias do agregado familiar. Estas deveriam ser as listas finais, mas na verdade nunca foram afixadas listas provisórias (um pormenor). Em Agosto recebo um telefonema do agrupamento, a informar que o João tinha passado para a segunda opção, porque tinha havido um problema com as listas anteriores.

Li a legislação de trás para a frente, voltei a ver as listas, a comparar, a tentar perceber. Ouvi os argumentos do agrupamento e tentei enquadra-los na legislação e percebi que valia a pena comprar a guerra. Principalmente quando há professores-doutores (aqueles cujos títulos são dados nos corredores para o wc mas que nunca terão competências profissionais e pessoais para assumir tal título) que te dizem: "o seu filho tem 5 anos não tem o direito a entrar no 1° ciclo, devia estar na pré". E tu enches o peito de ar e respondes: "o meu filho teve a infelicidade de nascer em Dezembro, mas vai entrar certamente no 1°ciclo, nem que seja noutro agrupamento ou até mesmo em ensino domiciliar".

Este ano o ministério da educação afixou o intervalo para início de ano entre 8 a 15 de setembro.
A luta durou mais de um mês e a resposta chegou na véspera da escola começar, no dia 13 de setembro.

A luta do João, que foi minha (grávida e com uma bebé recém operada, sempre numa montanha russa, sozinha num barco sem leme, a remar contra as direcções mais incertas) teve o desfecho desejado. O João foi novamente integrado na primeira opção.

Podia acabar aqui esta história? Podia, mas isso seria no mundo ideal.
A escola começou. Começou? Não, não começou. A escola abriu as portas e as crianças do 1° ano não têm professor. E não há funcionários (auxiliares) a dar apoio na escola.

Boa maneira de começar a tão desejosa caminhada, 23 crianças espalhadas alegremente por outras salas de aula e a começar a aprender que o mundo é uma selva e vão ter de arregaçar as mangas. É assim que se cresce!
Entrei para a primária na década de oitenta (ou oitchenta como diria o outro), numa altura em que havia muitas crianças e não me lembro de haver este circo!)

Eu vou continuar a lutar pela escola pública. Mas isto de dar autonomia aos agrupamentos deixa-me louca, porque a proximidade das populações não traz sabedoria mas sim muita incompetência.
Eu vou continuar a lutar pela escola pública, mas podem acreditar que se me saísse o Euromilhões eu não me matava a ser justa e a querer salvar o mundo, dedicava-me apenas a ser feliz, que já dá muito trabalho.

Boa sorte filho, apesar dos teus 5 anos, sei que vais fintar as adversidades muito melhor que os adultos que teimam em fazer regras muito próprias, sem olhar para os lados, apenas para o próprio umbigo.

Hoje, segunda-feira, quando o deixei na escola já havia professora e pedia aos pais para entrar na sala para reunião. Sem pré-aviso ou reserva, que isto de ser pai/mãe é para quem quer e não para quem pode.

Para breve as cenas dos próximos capítulos e o início do ano lectivo da Maria Rita.



sábado, 3 de setembro de 2016

Para ti que achas mesmo isto...

Há pessoas que acham que eu tenho uma vida maravilhosa.


Assim....

- dormir até ao meio-dia
- acordar para comer qualquer coisa gourmet que alguém me preparou
- voltar a descansar, provavelmente, atirada para o sofá enquanto vejo séries atrás de séries
- fazer um sacrifício para receber os filhos em casa que alguém os encarrega de trazer (ah afinal na vida perfeita que estas pessoas inventam para mim há filhos)
- alguém lhes dá banho, os alimenta, lhes atura as birras (são crianças) e os deita sem dramas, eu só brinco e rebolo a rir nos intervalos
- as compras aparecem em casa, temos sempre o frigorífico cheio e as prateleiras recheadas de cenas saudáveis
- a roupa lava-se, estende-se, dobra-se, passa-se e arruma-se....sozinha
- os animais são autónomos, ou fazem-se à vida e mandam vir pela internet as refeições e a higiene ao domicílio
- a casa está sempre impecável porque há alguém permanente a tratar de tudo para ela (que sou eu) poder estar ao alto, a ler, ver televisão e dormir
- às 21h está tudo incrivelmente calmo, as crianças a dormir e eu novamente no sofá a devorar novelas e a fazer de conta que leio livros de auto-ajuda
- os banhos são demorados e estou sempre fantástica, penteada e maquilhada mesmo para vegetar no sofá
- há fotografias da família feliz espalhadas pelas paredes brancas


- As crianças são impecáveis, educadas e obedientes. Às vezes fazem birra, mas só porque têm sono ou porque a aula de ballet não correu bem.

É isto mesmo. A minha vida é mesmo assim, mas com mais emoção, que só assim entre o sentado e o deitado era uma seca.


Ontem o meu filho encontrou-me sentada na casa de banho a chorar. Estava paralisada a olhar para o telemóvel por isso, na sua doce inocência, ele deve ter pensado que tinha perdido uma vida a jogar qualquer coisa de criança (todos sabemos que isto é um drama). Mas quando olhou melhor para o meu telemóvel, perguntou o que era aquilo. "O calendário" - respondi-lhe. 

Ninguém chora a olhar para o telemóvel pensou ele. E com um ar ainda mais preocupado perguntou "mas quê, o calendário anual ou o do mês?"
Nos 5 minutos que me permiti ter pena de mim, que fiz uma pausa entre esta vida maravilhosa que inclui homens semi-nus a cozinhar para mim, chorei a tentar perceber como faço três saltos mortais sem rede de apoio. Mas tenho uma vida boa e feliz, não destruam essa imagem, ok?


[Fotografias: Pinterest]

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O pé do José

E o meu terceiro baby é.....

RAPAZ

[Quem não perceber nada de ecografias pode ler as legenda da própria eco]

Podem ver os pés do meu terceiro coelhinho, não é lindo? A ver se este nasce com as unhas do pé para o lado da mãe [ahahahahahaha].

Digam lá, isto é que é pontaria.
Pílula de amamentação que deixa de o ser após uma gastroenterite das fortes, 30 dias de cabeçudos no forno, e na visita mensal do pai: tau.
Assim é fácil saber o dia e a hora e desmentir médicos quando teimarem que as medidas apontam para idades gestacionais exactas.

A Maria Rita será sempre o recheio da minha sandes, e os meus Jotas as fatias de pão mais deliciosas.

José, escolheste uma família de doidos, mas isto é giro miúdo!

[Há por aí lenços de papel extra para a avó e tia do baby Rabbit 3???]

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Menina ou menino?

Terceira gravidez e as perguntas da praxe continuam.

Já sabes o sexo?
[Espero que seja muito, mas só daqui a uns anos]

E quando vais saber (o sexo)?
[Se tudo correr bem em janeiro de 2017 dá para ver, como S. Tomé]

Já sabes o que é?
[Gosto muito desta, e respondo sempre: "desta vez é um cãozinho!"]

É óbvio que quando tiver a certeza do género do baby Rabbit 3 vou dizer e contar ao mundo, não sou pessoa de guardar essas coisas, aliás essas e outras, até vos posso dizer em que dia aconteceu, a hora, a posição, entre outros pormenores.
Mas é muito cansativo estar sempre a ouvir a mesma pergunta, em formas variadas. Já sei que lá para novembro vão começar a perguntar: "quando nasce?" ou "para quando é?".

JANEIRO. Guardem esta data. Daqui a 5 meses já temos oficialmente uma família numerosa [já falta pouco para os 6 filhos, a Toyota Hiace e o fogareiro]!!!!

Então e o teu feeling? Tens preferência?
Tenho. Depois de querer muito que seja perfeito(a) e de boa saúde, sem aqueles palavrões que normalmente circulam em relatórios médicos, quero muito que seja rapaz.

E quando me dizem, que as meninas são mais calmas, mais tranquilas, que dão menos dores de cabeça, que já tenho as coisas da Maria Rita e que seria muito giro por serem mais próximas. Eu suspiro. Um longo suspiro.

As mulheres são tramadas. E muitas mulheres no mesmo espaço pode ser dramático. Lembro-me sempre das palavras da nossa veterinária quando se fala em várias fêmeas no mesmo habitat: "duas fêmeas é normalmente sinónimo de problemas, é como ter a nora e a sogra na mesma casa". Entendem?

[Isto é a Maria Rita a trepar a mesa de actividades e subir para um dos sofás. E com ar desafiador me diz que agora vai gozar à farta com todos os brinquedos e coisas de adulto que coloco no móvel alto para ela não conseguir mexer! Tão querida. Tem 13 meses e uma cirurgia a um rim há 20 dias.]

Suspiro. A Maria Rita não é propriamente uma criança angelical. Calma, tranquila e que brinca com bonecas. A Maria Rita consegue, com a idade que tem, aventurar-se mais do que o João, que já era levado da breca. 

Ela grita, ela trepa, ela desafia, ela corre, ela faz birra se não tem o que quer, ela discute, ela ralha com o irmão ou qualquer pessoa que a contrarie ou simplesmente lhe diga "ai ai" ou "não não", qualquer caixa de brinquedos, brinquedo ou obstáculo serve de degrau, tem fascínio pelos brinquedos do irmão, corre atrás das bolas e brinca com carros e motas e imita sons "brummm".
Como podem ver é um sonho de menina, que passa o dia a tocar piano, a fazer crochet e falar francês. É isso, manda vir 5 iguais e vão-me visitar ao Magalhães Lemos.

E para reforçar a ideia. O João naceu em Dezembro. Rapaz. Bebé de inverno. Para os primeiros meses de vida não teria nada de menina para vestir à criança, por exemplo. Só para recordar.

Digam lá de vossa justiça, o que acham que é? Não se sintam inibidos pela minha preferência. Até porque se for menina não vou dar para a roda....tranquilos.

domingo, 21 de agosto de 2016

Venham até mim os tomates

Calma, calma. Agora não vou falar de bebés e muito menos do sexo do terceiro baby Rabbit. Quem costuma vir apenas para saber das crianças pode já fechar a página.

Este ano quem tratou de meter na terra os mimos e fazer a horta, fui eu.
Sozinha com duas crianças, duas gatas e um cão, percebi desde cedo que a única pessoa que estava por perto e podia ajudar não estava disponível para colaborar. Nem em nome desse laço de sangue e da publicidade que vai apregoando ao povo.

Estávamos em Maio, e lá fui à feira comprar as miudezas. Trouxe aquilo que sei que gasto e que podia ser eu a tratar. De fora ficaram os tomates, porque precisam de amor e carinho, de serem estacados e capados.

Mr. Rabbit tinha deixado a terra lavrada. Eu abri os regos, os buracos e plantei alface, couve coração, bróculos, alho francês, beringelas, courgettes e mais tarde batata doce e abóboras.

Depois fui operada de urgência e estava fora de questão tratar da horta. E depois descobri que estava grávida e as hemorragias eram constantes. E por fim a operação da Maria Rita.
Nem sempre a horta teve o rumo certo. E o proveito que a terra daria. Mas foi sobrevivendo e a colheita tem sido feliz.

Contudo, não havia tomates. Eu todos os anos faço molho. Nem preciso de muitos cuidados porque vai num instante. Este ano já ponderava comprar quando me deram uma saca deles.

Ontem foi o dia.

Vi que a Leonor do blog  na cadeira da papa, congelava em formas de silicone para queques e achei fantástica a ideia.
A receita da Leonor é a que eu costumo fazer, por isso, lá meti mãos à obra.

O meu não ficou tão vermelho como o da Leonor, porque a qualidade do tomate interfere bastante. E claro que até tive direito a coelhinhos de tomate.

Aproveitei e para o almoço fiz uma bolonhesa de soja e que boa que estava.

Venham até mim esses tomates, porque agora as refeições vão ter de ser preparadas cada vez de forma mais rápida e tenho mesmo de me organizar. 

Receita:

Tomate

Courgette

Cenoura 

Cebola 

Alho 

Salsa

Manjericão

Sal 

(As quantidades são sempre a olho. Deixo cozinhar tudo, com bastante azeite, até o tomate libertar todo o seu sumo e no final trituro com a varinha)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Será que o coração aumenta?

Se me virem por aí a rebolar já sabem que é verdade.

A nossa vida estava muito calma, as águas mansas e tranquilas a precisar de agitação das correntes da vida [parágrafo cheio de sarcasmo, claro!]

Então a mãe terra, no alto da sua sabedoria, decidiu que este corpo estava apto para se encher, de mais amor, uns kilos a mais e um coração pequenino a bater dentro de mim.

Se me disserem que estou grávida, eu continuo a dizer que não pode ser. Mas a verdade é que tenho uma vida a crescer velozmente dentro de mim.

Desejem nos sorte, a viagem já conta com muitos percalços.

Temos um coelhinho/a no forno, a servir no inverno.

sábado, 13 de agosto de 2016

Ema

Enquanto a Maria Rita esteve internada pós-cirurgia, conhecemos uma menina deliciosa, com uns 2/3 anos, a Ema.
A Ema tem uma doença rara, no fígado. Só há 4 casos conhecidos em Portugal. Pelo que percebi é uma espécie de bloqueio e o fígado deixa de funcionar. A Ema foi operada com 1 mês e meio de vida, tirou parte do fígado, o cirurgião disse aos pais que a última vez que tinha realizado uma cirurgia idêntica tinha sido há 8 anos.
E depois da cirurgia? Foi viver a angústia de não saber como será o minuto seguinte, o dia seguinte e qual será o futuro. A Ema passa períodos longos internada a fazer antibiótico intravenoso. Tem agora um irmão bebé, o Lourenço, com 9 meses. E os pais, visivelmente cansados e um pouco conformados diziam que preferiam o transplante, que um deles podia ser o dador e que o fígado é um órgão que se regenera com facilidade. Mas que os médicos não colocam o transplante como parte do processo e de combate a esta doença inexplicável.
A Ema, cheia de febre e de cateter na mão, protegido por uma rede, porque já não tinha mais nenhuma veia a colaborar, passeava um pluto de rodinhas que ia abanando a cabeça pelos corredores.
Faladora. Quando uma enfermeira ou auxiliar perguntavam "és minha amiga?", ela respondia "não".
E eu pergunto, com esta idade e a passar por tudo isto como pode a Ema ser amiga de alguém? Confiar que a vida tem sorrisos para lhe oferecer sem pedir nada em troca?
A Maria Rita deixou o hospital muito assustada, mas em casa, no seu ambiente, com a comida que gosta, com as gatas a passear por entre as pernas e um chão só dela para percorrer voltou ao seu estado normal. Uma alegria imensa, uma energia contagiante e uma recuperação muito saudável.
Obrigada mais uma vez por todas as mensagens, pelo carinho e pela magia que conseguiram transmitir nesta fase tão importante para nós.

sábado, 6 de agosto de 2016

A minha guerreira

Maria Rita, fizeste 13 meses na segunda-feira passada. Estávamos já em contagem decrescente.
Antes do dia D, houve consulta de anestesia e análises. Muito choro, muitos gritos.
Na noite de quinta-feira, com 13 meses e 3 dias arriscaste os primeiros passos sozinha como a lembrar que há datas importantes e que nos deixam alegrias no coração. Não há registo, desculpa.
E no dia da cirurgia estavas bem disposta e risonha, apesar do jejum, sempre alegre e com muita energia.
Entraste para o bloco operatório ao colo da enfermeira. Estavas bem. Não sabias para onde ias e deves ter confiado que seria um sítio bonito. Já nos tinham explicado todos os procedimentos e tinhas uma pomada analgésica nas possíveis entradas de cateter para aliviar o sofrimento. Iria ser colocada uma máscara com o sedativo para depois ser feita a restante instrumentalização e tu ias chorar, "choram todos".
Disseram-nos para regressar uma hora depois, para passear, tomar café e apanhar ar.
Uma hora depois, já no lado de fora da porta e ninguém nos chamava, olhava fixamente o relógio pendurado no corredor. O coração a encolher. Encostei a cabeça no colo do pai e pedi ao nosso "Pai" para te guardar, para continuar lá, por mim, para te abraçar e te dar beijinhos pequeninos, para te afastar as madeixas da testa e te segredar "está tudo bem".
O pai num misto de ansiedade e de fuga para a frente, levantou-se, entrou e dirigiu-se para a zona de recobro à procura de informação e disseram que tinhas acabado de chegar, que já te podíamos ver.
Ao longe, consegui ver as últimas manobras, pediram-nos desculpa porque normalmente os pais só entram depois. Vi o teu corpo pequenino numa cama grande, a máscara foi retirada e o oxigénio estabilizado, puseram o ar quentinho por baixo do lençol e disseram que ias dormir o tempo que quisesses ali.
O cirurgião dizia que tudo tinha corrido bem, como planeado. Estava sereno. Era a terceira cirurgia e ainda havia mais uma.
Sentei-me na tua cabeceira, beijei-te o rosto e arranjei-te a franja do cabelo teimoso. Precisava muito de te sentir, de te beijar, de te dizer ao ouvido "estou aqui meu amor, a mãe vai estar sempre aqui e tu vais ficar boa".
Passaram 45 minutos e quando abriste os olhos e me viste, desataste a gatinhar para o meu colo. Choravas sempre que alguém se aproximava e aninhaste-te em mim.
Consigo adivinhar o teu sofrimento por trás daquela máscara, a partir deste momento pessoas com batas não podiam aproximar-se de ti que havia um choro compulsivo. Estavas assustada, não me podias ver longe, nem para ir à casa de banho. Passei a ser o teu colchão, o teu bálsamo, o teu ninho.
Voltaste a sorrir hoje de manhã. Os olhos muito inchados mas já com uma energia perigosa para quem tinha tirado parte do rim. Muitos tubos, havia sangue a ser drenado para um saco, havia máquinas a apitar, havia medicação intravenosa e muitas lágrimas para chorar.
És a minha guerreira, meu amor. E lembra-te que há um propósito para tudo na vida, este será o teu e já mostraste ter coragem para o devorar.
Nota: obrigado a todos os que estiveram connosco e que continuam ao nosso lado para nos dar a mão e partilhar a fé. A Maria Rita está bem, a normalidade possível num pós-operatorio. E tudo o que precisa é de descansar para ter ainda mais força para vencer. Os bebés pequenos não se visitam, enviam-se beijos e abraços divinos. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Para ganhar fôlego

Eu tinha prometido matchi matchi com os filhos mais lindos, aqui.
E para descontrair, para ganhar fôlego, olho para as fotos e penso vai tudo correr bem.


Muito obrigada a todos os que me têm deixado mensagens de esperança e que se têm disponibilizado para ajudar, orar, acreditar e fortalecer a nossa fé. Acredito que tenho junto a mim as pessoas mais especiais do mundo. Obrigada.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Respirar, aceitar, acreditar

Numa das muitas consultas que tivemos em julho, a cirurgia da Maria Rita foi agendada para meados de agosto.

Nesse dia senti quase todas as sensações do mundo.

Medo, pânico e o coração a encolher e ficar do tamanho de uma ervilha. Tinha acabado de assinar um consentimento e acredito 100% na equipa que a vai operar, mas como o médico lembrou, "é uma cirurgia nunca sabemos o que vamos encontrar, porque na medicina 2+2 não são 4".

Alívio, esperança e muita fé. Com esta cirurgia os médicos acreditam que o foco de maior perigo será eliminado.
Trocado por miúdos e explicado às crianças seria: vai-te embora rim mau, não faças mal ao que está à tua volta.
A partir daqui, se tudo correr como previsto, podemos acreditar numa quase-cura.

Nessa noite li todas as actas médicas que encontrei sobre o assunto. E fui para o YouTube ver filmes de cirurgias semelhantes.
Chorei a noite toda.

Sim, eu sei que não o devia ter feito mas foi mais forte do que eu. É esta forma de tentar perceber como tudo acontece, faz-me querer saber tudo ao pormenor.

Acontece que chegou uma carta do hospital, a cirurgia foi antecipada. E o meu mundo tremeu novamente. Quase não tenho tempo para pensar, o  que pode ser bom, mas há mais vida na nossa vida para além disto, há outro filho e uma bola de neve em avalanche.

A vida não é o conto de fadas que nos venderam na infância. E isso não mata, mas mói.

Mesmo que estejam de férias, lembrem-se da minha bebé e desejem-lhe tudo de bom, como se fosse para os vossos filhos. Obrigada.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Desculpem a ausência...

Mas na hora de decidir, quero aproveitar as duas semanas em que os meus filhos estão com o pai.

Deixo só um bocadinho...

Até já.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Curtas e boas

Não tem sido possível escrever. Tem sido difícil respirar. Mas no meio do caminho vamos encontrando força e isso é o que importa.

- a Maria Rita esteve à espera de completar os 12 meses para mostrar os primeiros exemplares da dentição de leite, hoje decidiu testar a sua função no mamilo da mãe, chorámos as duas;

- o João tinha o cabelo bonito e aparadinho por um profissional, mas estava a começar a praia do atl e decidiu pegar numa tesoura e rapar a franja mesmo rente, durante uns dias sempre que olhava para ele tinha vontade de chorar;

- nestas duas semanas tivemos (eu e a Maria Rita) mais consultas e exames do que muita gente na vida toda;

- entretanto consegui ver o filme "o nosso milagre" que falei aqui, não preciso dizer que chorei muito. Mas depois cedi ao preconceito e vi as "50 sombras de Grey" e fiquei melhor, quer dizer, cada um chora por onde tem mais saudades, não é?

- voltamos a confirmar, que é nos piores momentos, que os amigos verdadeiros estão presentes, que as lágrimas partilhadas doem menos e a força, coragem e fé movem montanhas;

- é quando a vida nos troca as voltas que reencontramos no amor uma forma de cura. Sim #oamorcuratudo

terça-feira, 5 de julho de 2016

O nosso milagre

O nosso milagre. Este é o título de um filme que estreou em Portugal há uns meses.
Por motivos óbvios ainda não o consegui ver, mas já li várias coisas sobre o tema.

Baseado numa história verídica relatada em livro pela mãe e adaptada para o cinema, conta a história de um casal com 3 filhas que descobre que uma delas tem um doença crónica incurável e que não consegue ter uma vida normal. A menina sofre entre os 5 e os 10 anos de tal forma que chega a desejar partir.

Até aqui o filme já tinha tudo para me captar a atenção, mas na verdade há mais.

Um dia a menina a brincar no jardim com as irmãs sofre uma queda de uma árvore, perde a consciência e as operações de resgate muito arriscadas.
Quando recupera a consciência, para além de ter sobrevivido, os médicos descobrem que está curada.
Já em casa a menina vai relatando à mãe experiências vivenciadas no período em que esteve inconsciente. Conta que visitou o céu e falou com Jesus.

Há umas semanas a Maria Rita caiu, bateu com a cabeça e desmaiou.
Ficou-me imóvel nos braços, como morta. Demorou a recuperar a consciência e eu pensei que a tinha perdido para sempre.
Sozinha com duas crianças, a cabeça a mil e o coração descompassado.
Já depois dela ter recuperado eu continuei em pânico. Tinha medo que adormecesse e implorava para que ficasse comigo.
Nunca se desiste de um filho. E há pais que não saberão o que isto significa.

Agora, já com algumas explicações científicas e médicas sobre o que terá acontecido, e sem sequelas, sonho que os milagres aconteçam. Que um dia os médicos me digam que a minha filha está curada. E que esta doença nos deixe para sempre e possamos sorrir e viver sem mas.

Espero um dia escrever aqui como tudo se transformou. Um passo de cada vez. E sem nunca perder a esperança, que renasce muitas vezes de onde menos esperamos.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Maria Rita [12 meses]

12 meses, Maria Rita, o teu primeiro ano de vida completo.
Foi no dia 1 de Julho. E mesmo sem saberes que tudo aquilo era para ti, estavas feliz e bem disposta.

Podia dizer-te que estes 12 meses foram de uma caminhada longa e muitas vezes sofrida. Mas não posso deixar de te enaltecer o sorriso, as gargalhadas, a energia, a doçura, o feitio retorcido.

És uma lutadora. Não sabes mas conquistas todos os dias o mais difícil: a vida.

És irrequieta e tagarela. Simpática e muito chorona. Os teus berros devem ouvir-se na freguesia ao lado, não gostas de estar sozinha um minuto. Não trocas a mãe por nada, mas se eu não estiver também não morre ninguém (que remédio).

Só gostas dos brinquedos do teu irmão. E das coisas a sério, como comandos, telemóveis ou tablets.

Não tens nenhum dente, e ainda bem, porque és uma ferinha a mamar.

Tens o sorriso mais bonito e eu não me canso de olhar para ti meu bebé.
Passou um ano. Já passou um ano.

[As tuas primeiras fotos para relembrar cada detalhe teu bebé]

terça-feira, 28 de junho de 2016

Sou filha do mar

Cresci numa cidade junto ao mar. Desde que me lembro que o oceano era o meu fascínio.
Mesmo o mar picado do Norte, com marés vivas e correntes fortes nunca me intimidou.
Contam os meus pais que mesmo antes de saber falar em condições, já apontava para a água, roxa de frio a implorar para voltar.

Com pouco mais de dois anos desapareci na praia. Depois de desesperadamente terem procurado tudo e em todo o lado, fez-se uma espera junto ao mar, talvez a rebentação devolvesse o corpo pequeno deste peixinho de água salgada. Não devolveu. Fui encontrada na gelataria onde nesse verão o meu tio mais novo estava a trabalhar, estava bem e a comer um gelado.

Sempre fui independente. Nunca aceitei um não. E nem mesmo com dois anos achei que uma avenida com trânsito intenso em pleno verão me seria barreira para conseguir o que queria.

Fui crescendo. Fui dominando o mar. Nas férias do ATL a praia era o nosso destino. Na hora de molhar os pés, tínhamos um nadador-salvador por nossa conta e eu e o Pedro éramos os únicos com autorização para acompanhar o bombeiro Laborim até mar alto, onde não tínhamos pé, já fora da zona de rebentação, para nadar e boiar. Onde havia realmente a emoção do mar, em liberdade.

Aos 14 anos, mal chegava o fim do ano lectivo, rumávamos em grupo, de bicicleta para a praia. Ficávamos desde manhã até quase anoitecer enrolados na areia e a sentir o sal a espalhar-se no corpo. Não havia limites. Mesmo quando o sol não aparecia.
Em Julho, quando normalmente os meus pais entravam de férias já eu estava com um bronze invejável e com a pele salgada e dura.

Conheci outros mares, outras costas. Águas mais quentes e com menos sal. Mas guardo na memória a emoção de uma onda grande a chegar e trepar para o colo do meu pai para me embalar na hora do grande salto. Guardo cada mergulho nas águas geladas e a emoção do querer voltar, mesmo quando todos me queriam tirar da água e o mar a puxar-me no seu instinto protector de me devolver a casa.

Lembro-me das tardes de inverno em que ouvia em minha casa,  a 5 km de distância, o som das ondas a rebentar no paredão. Ou das manhãs  de Primavera em que ao abrir as janelas sentia o cheiro fresco da maresia.

Nunca nada me intimidou. Fintei sempre as adversidades com convicção e a determinação de quem sabe o que quer. Chorei muitas vezes e também me senti perdida. Mas ali, perto do mar, consegui encontrar sempre o rumo certo e a coragem de retomar o fio condutor que me trouxe até ali.
Aos 2 anos quando a multidão e o trânsito não me fizeram parar ou ou aos 20 quando apertei o pescoço a um gajo sem escrúpulos enquanto o encostava à parede.

Era esta a Joana que até à pouco tempo me mostrou que não existem impossíveis. Que dá um abraço a uma empregada da limpeza e aperta a mão ao presidente da República, sempre com um sorriso e com a humildade de quem pode ser tudo, mas é essencialmente agradecida e educada para todos.

E é esta Joana que eu perdi. Não sei precisar quando. É esta Joana que se enterrou em montanhas profundas onde não chega a brisa do mar, que não consegue encontrar o norte porque não sabe onde se dá a rebentação das ondas no paredão.
Enganada por um pássaro pouco sério. Que prometeu mostrar outros rumos e outros mares, seguindo cega e sem rumo nas vozes calmas de um egoísta descrente. Encalhei em terras secas, sem que a cordilheira me deixe sentir o mar.

Procuro a Joana que aos dois anos seguiu em frente sem olhar para trás. Sem ter medo de gigantes ou lobos malvados que se escondem na multidão. Procuro a Joana que se aventurava em mar alto, que tratava o oceano por tu sem medo de monstros marinhos ou correntes maléficas. Porque há alturas em que precisamos matar o que nos faz mal e encontrar a nossa verdadeira essência.

Escrever como terapia é também arrumar ideias e filtrar o lixo.
Procuro viva ou morta por quem neste momento me pode devolver o sorriso, porque esta Joana deixou de acreditar em cordeiros que afinal são lobos e em terras livres que afinal são desertos sem fim.