domingo, 21 de agosto de 2016

Venham até mim os tomates

Calma, calma. Agora não vou falar de bebés e muito menos do sexo do terceiro baby Rabbit. Quem costuma vir apenas para saber das crianças pode já fechar a página.

Este ano quem tratou de meter na terra os mimos e fazer a horta, fui eu.
Sozinha com duas crianças, duas gatas e um cão, percebi desde cedo que a única pessoa que estava por perto e podia ajudar não estava disponível para colaborar. Nem em nome desse laço de sangue e da publicidade que vai apregoando ao povo.

Estávamos em Maio, e lá fui à feira comprar as miudezas. Trouxe aquilo que sei que gasto e que podia ser eu a tratar. De fora ficaram os tomates, porque precisam de amor e carinho, de serem estacados e capados.

Mr. Rabbit tinha deixado a terra lavrada. Eu abri os regos, os buracos e plantei alface, couve coração, bróculos, alho francês, beringelas, courgettes e mais tarde batata doce e abóboras.

Depois fui operada de urgência e estava fora de questão tratar da horta. E depois descobri que estava grávida e as hemorragias eram constantes. E por fim a operação da Maria Rita.
Nem sempre a horta teve o rumo certo. E o proveito que a terra daria. Mas foi sobrevivendo e a colheita tem sido feliz.

Contudo, não havia tomates. Eu todos os anos faço molho. Nem preciso de muitos cuidados porque vai num instante. Este ano já ponderava comprar quando me deram uma saca deles.

Ontem foi o dia.

Vi que a Leonor do blog  na cadeira da papa, congelava em formas de silicone para queques e achei fantástica a ideia.
A receita da Leonor é a que eu costumo fazer, por isso, lá meti mãos à obra.

O meu não ficou tão vermelho como o da Leonor, porque a qualidade do tomate interfere bastante. E claro que até tive direito a coelhinhos de tomate.

Aproveitei e para o almoço fiz uma bolonhesa de soja e que boa que estava.

Venham até mim esses tomates, porque agora as refeições vão ter de ser preparadas cada vez de forma mais rápida e tenho mesmo de me organizar. 

Receita:

Tomate

Courgette

Cenoura 

Cebola 

Alho 

Salsa

Manjericão

Sal 

(As quantidades são sempre a olho. Deixo cozinhar tudo, com bastante azeite, até o tomate libertar todo o seu sumo e no final trituro com a varinha)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Será que o coração aumenta?

Se me virem por aí a rebolar já sabem que é verdade.

A nossa vida estava muito calma, as águas mansas e tranquilas a precisar de agitação das correntes da vida [parágrafo cheio de sarcasmo, claro!]

Então a mãe terra, no alto da sua sabedoria, decidiu que este corpo estava apto para se encher, de mais amor, uns kilos a mais e um coração pequenino a bater dentro de mim.

Se me disserem que estou grávida, eu continuo a dizer que não pode ser. Mas a verdade é que tenho uma vida a crescer velozmente dentro de mim.

Desejem nos sorte, a viagem já conta com muitos percalços.

Temos um coelhinho/a no forno, a servir no inverno.

sábado, 13 de agosto de 2016

Ema

Enquanto a Maria Rita esteve internada pós-cirurgia, conhecemos uma menina deliciosa, com uns 2/3 anos, a Ema.
A Ema tem uma doença rara, no fígado. Só há 4 casos conhecidos em Portugal. Pelo que percebi é uma espécie de bloqueio e o fígado deixa de funcionar. A Ema foi operada com 1 mês e meio de vida, tirou parte do fígado, o cirurgião disse aos pais que a última vez que tinha realizado uma cirurgia idêntica tinha sido há 8 anos.
E depois da cirurgia? Foi viver a angústia de não saber como será o minuto seguinte, o dia seguinte e qual será o futuro. A Ema passa períodos longos internada a fazer antibiótico intravenoso. Tem agora um irmão bebé, o Lourenço, com 9 meses. E os pais, visivelmente cansados e um pouco conformados diziam que preferiam o transplante, que um deles podia ser o dador e que o fígado é um órgão que se regenera com facilidade. Mas que os médicos não colocam o transplante como parte do processo e de combate a esta doença inexplicável.
A Ema, cheia de febre e de cateter na mão, protegido por uma rede, porque já não tinha mais nenhuma veia a colaborar, passeava um pluto de rodinhas que ia abanando a cabeça pelos corredores.
Faladora. Quando uma enfermeira ou auxiliar perguntavam "és minha amiga?", ela respondia "não".
E eu pergunto, com esta idade e a passar por tudo isto como pode a Ema ser amiga de alguém? Confiar que a vida tem sorrisos para lhe oferecer sem pedir nada em troca?
A Maria Rita deixou o hospital muito assustada, mas em casa, no seu ambiente, com a comida que gosta, com as gatas a passear por entre as pernas e um chão só dela para percorrer voltou ao seu estado normal. Uma alegria imensa, uma energia contagiante e uma recuperação muito saudável.
Obrigada mais uma vez por todas as mensagens, pelo carinho e pela magia que conseguiram transmitir nesta fase tão importante para nós.

sábado, 6 de agosto de 2016

A minha guerreira

Maria Rita, fizeste 13 meses na segunda-feira passada. Estávamos já em contagem decrescente.
Antes do dia D, houve consulta de anestesia e análises. Muito choro, muitos gritos.
Na noite de quinta-feira, com 13 meses e 3 dias arriscaste os primeiros passos sozinha como a lembrar que há datas importantes e que nos deixam alegrias no coração. Não há registo, desculpa.
E no dia da cirurgia estavas bem disposta e risonha, apesar do jejum, sempre alegre e com muita energia.
Entraste para o bloco operatório ao colo da enfermeira. Estavas bem. Não sabias para onde ias e deves ter confiado que seria um sítio bonito. Já nos tinham explicado todos os procedimentos e tinhas uma pomada analgésica nas possíveis entradas de cateter para aliviar o sofrimento. Iria ser colocada uma máscara com o sedativo para depois ser feita a restante instrumentalização e tu ias chorar, "choram todos".
Disseram-nos para regressar uma hora depois, para passear, tomar café e apanhar ar.
Uma hora depois, já no lado de fora da porta e ninguém nos chamava, olhava fixamente o relógio pendurado no corredor. O coração a encolher. Encostei a cabeça no colo do pai e pedi ao nosso "Pai" para te guardar, para continuar lá, por mim, para te abraçar e te dar beijinhos pequeninos, para te afastar as madeixas da testa e te segredar "está tudo bem".
O pai num misto de ansiedade e de fuga para a frente, levantou-se, entrou e dirigiu-se para a zona de recobro à procura de informação e disseram que tinhas acabado de chegar, que já te podíamos ver.
Ao longe, consegui ver as últimas manobras, pediram-nos desculpa porque normalmente os pais só entram depois. Vi o teu corpo pequenino numa cama grande, a máscara foi retirada e o oxigénio estabilizado, puseram o ar quentinho por baixo do lençol e disseram que ias dormir o tempo que quisesses ali.
O cirurgião dizia que tudo tinha corrido bem, como planeado. Estava sereno. Era a terceira cirurgia e ainda havia mais uma.
Sentei-me na tua cabeceira, beijei-te o rosto e arranjei-te a franja do cabelo teimoso. Precisava muito de te sentir, de te beijar, de te dizer ao ouvido "estou aqui meu amor, a mãe vai estar sempre aqui e tu vais ficar boa".
Passaram 45 minutos e quando abriste os olhos e me viste, desataste a gatinhar para o meu colo. Choravas sempre que alguém se aproximava e aninhaste-te em mim.
Consigo adivinhar o teu sofrimento por trás daquela máscara, a partir deste momento pessoas com batas não podiam aproximar-se de ti que havia um choro compulsivo. Estavas assustada, não me podias ver longe, nem para ir à casa de banho. Passei a ser o teu colchão, o teu bálsamo, o teu ninho.
Voltaste a sorrir hoje de manhã. Os olhos muito inchados mas já com uma energia perigosa para quem tinha tirado parte do rim. Muitos tubos, havia sangue a ser drenado para um saco, havia máquinas a apitar, havia medicação intravenosa e muitas lágrimas para chorar.
És a minha guerreira, meu amor. E lembra-te que há um propósito para tudo na vida, este será o teu e já mostraste ter coragem para o devorar.
Nota: obrigado a todos os que estiveram connosco e que continuam ao nosso lado para nos dar a mão e partilhar a fé. A Maria Rita está bem, a normalidade possível num pós-operatorio. E tudo o que precisa é de descansar para ter ainda mais força para vencer. Os bebés pequenos não se visitam, enviam-se beijos e abraços divinos. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Para ganhar fôlego

Eu tinha prometido matchi matchi com os filhos mais lindos, aqui.
E para descontrair, para ganhar fôlego, olho para as fotos e penso vai tudo correr bem.


Muito obrigada a todos os que me têm deixado mensagens de esperança e que se têm disponibilizado para ajudar, orar, acreditar e fortalecer a nossa fé. Acredito que tenho junto a mim as pessoas mais especiais do mundo. Obrigada.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Respirar, aceitar, acreditar

Numa das muitas consultas que tivemos em julho, a cirurgia da Maria Rita foi agendada para meados de agosto.

Nesse dia senti quase todas as sensações do mundo.

Medo, pânico e o coração a encolher e ficar do tamanho de uma ervilha. Tinha acabado de assinar um consentimento e acredito 100% na equipa que a vai operar, mas como o médico lembrou, "é uma cirurgia nunca sabemos o que vamos encontrar, porque na medicina 2+2 não são 4".

Alívio, esperança e muita fé. Com esta cirurgia os médicos acreditam que o foco de maior perigo será eliminado.
Trocado por miúdos e explicado às crianças seria: vai-te embora rim mau, não faças mal ao que está à tua volta.
A partir daqui, se tudo correr como previsto, podemos acreditar numa quase-cura.

Nessa noite li todas as actas médicas que encontrei sobre o assunto. E fui para o YouTube ver filmes de cirurgias semelhantes.
Chorei a noite toda.

Sim, eu sei que não o devia ter feito mas foi mais forte do que eu. É esta forma de tentar perceber como tudo acontece, faz-me querer saber tudo ao pormenor.

Acontece que chegou uma carta do hospital, a cirurgia foi antecipada. E o meu mundo tremeu novamente. Quase não tenho tempo para pensar, o  que pode ser bom, mas há mais vida na nossa vida para além disto, há outro filho e uma bola de neve em avalanche.

A vida não é o conto de fadas que nos venderam na infância. E isso não mata, mas mói.

Mesmo que estejam de férias, lembrem-se da minha bebé e desejem-lhe tudo de bom, como se fosse para os vossos filhos. Obrigada.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Desculpem a ausência...

Mas na hora de decidir, quero aproveitar as duas semanas em que os meus filhos estão com o pai.

Deixo só um bocadinho...

Até já.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Curtas e boas

Não tem sido possível escrever. Tem sido difícil respirar. Mas no meio do caminho vamos encontrando força e isso é o que importa.

- a Maria Rita esteve à espera de completar os 12 meses para mostrar os primeiros exemplares da dentição de leite, hoje decidiu testar a sua função no mamilo da mãe, chorámos as duas;

- o João tinha o cabelo bonito e aparadinho por um profissional, mas estava a começar a praia do atl e decidiu pegar numa tesoura e rapar a franja mesmo rente, durante uns dias sempre que olhava para ele tinha vontade de chorar;

- nestas duas semanas tivemos (eu e a Maria Rita) mais consultas e exames do que muita gente na vida toda;

- entretanto consegui ver o filme "o nosso milagre" que falei aqui, não preciso dizer que chorei muito. Mas depois cedi ao preconceito e vi as "50 sombras de Grey" e fiquei melhor, quer dizer, cada um chora por onde tem mais saudades, não é?

- voltamos a confirmar, que é nos piores momentos, que os amigos verdadeiros estão presentes, que as lágrimas partilhadas doem menos e a força, coragem e fé movem montanhas;

- é quando a vida nos troca as voltas que reencontramos no amor uma forma de cura. Sim #oamorcuratudo

terça-feira, 5 de julho de 2016

O nosso milagre

O nosso milagre. Este é o título de um filme que estreou em Portugal há uns meses.
Por motivos óbvios ainda não o consegui ver, mas já li várias coisas sobre o tema.

Baseado numa história verídica relatada em livro pela mãe e adaptada para o cinema, conta a história de um casal com 3 filhas que descobre que uma delas tem um doença crónica incurável e que não consegue ter uma vida normal. A menina sofre entre os 5 e os 10 anos de tal forma que chega a desejar partir.

Até aqui o filme já tinha tudo para me captar a atenção, mas na verdade há mais.

Um dia a menina a brincar no jardim com as irmãs sofre uma queda de uma árvore, perde a consciência e as operações de resgate muito arriscadas.
Quando recupera a consciência, para além de ter sobrevivido, os médicos descobrem que está curada.
Já em casa a menina vai relatando à mãe experiências vivenciadas no período em que esteve inconsciente. Conta que visitou o céu e falou com Jesus.

Há umas semanas a Maria Rita caiu, bateu com a cabeça e desmaiou.
Ficou-me imóvel nos braços, como morta. Demorou a recuperar a consciência e eu pensei que a tinha perdido para sempre.
Sozinha com duas crianças, a cabeça a mil e o coração descompassado.
Já depois dela ter recuperado eu continuei em pânico. Tinha medo que adormecesse e implorava para que ficasse comigo.
Nunca se desiste de um filho. E há pais que não saberão o que isto significa.

Agora, já com algumas explicações científicas e médicas sobre o que terá acontecido, e sem sequelas, sonho que os milagres aconteçam. Que um dia os médicos me digam que a minha filha está curada. E que esta doença nos deixe para sempre e possamos sorrir e viver sem mas.

Espero um dia escrever aqui como tudo se transformou. Um passo de cada vez. E sem nunca perder a esperança, que renasce muitas vezes de onde menos esperamos.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Maria Rita [12 meses]

12 meses, Maria Rita, o teu primeiro ano de vida completo.
Foi no dia 1 de Julho. E mesmo sem saberes que tudo aquilo era para ti, estavas feliz e bem disposta.

Podia dizer-te que estes 12 meses foram de uma caminhada longa e muitas vezes sofrida. Mas não posso deixar de te enaltecer o sorriso, as gargalhadas, a energia, a doçura, o feitio retorcido.

És uma lutadora. Não sabes mas conquistas todos os dias o mais difícil: a vida.

És irrequieta e tagarela. Simpática e muito chorona. Os teus berros devem ouvir-se na freguesia ao lado, não gostas de estar sozinha um minuto. Não trocas a mãe por nada, mas se eu não estiver também não morre ninguém (que remédio).

Só gostas dos brinquedos do teu irmão. E das coisas a sério, como comandos, telemóveis ou tablets.

Não tens nenhum dente, e ainda bem, porque és uma ferinha a mamar.

Tens o sorriso mais bonito e eu não me canso de olhar para ti meu bebé.
Passou um ano. Já passou um ano.

[As tuas primeiras fotos para relembrar cada detalhe teu bebé]

terça-feira, 28 de junho de 2016

Sou filha do mar

Cresci numa cidade junto ao mar. Desde que me lembro que o oceano era o meu fascínio.
Mesmo o mar picado do Norte, com marés vivas e correntes fortes nunca me intimidou.
Contam os meus pais que mesmo antes de saber falar em condições, já apontava para a água, roxa de frio a implorar para voltar.

Com pouco mais de dois anos desapareci na praia. Depois de desesperadamente terem procurado tudo e em todo o lado, fez-se uma espera junto ao mar, talvez a rebentação devolvesse o corpo pequeno deste peixinho de água salgada. Não devolveu. Fui encontrada na gelataria onde nesse verão o meu tio mais novo estava a trabalhar, estava bem e a comer um gelado.

Sempre fui independente. Nunca aceitei um não. E nem mesmo com dois anos achei que uma avenida com trânsito intenso em pleno verão me seria barreira para conseguir o que queria.

Fui crescendo. Fui dominando o mar. Nas férias do ATL a praia era o nosso destino. Na hora de molhar os pés, tínhamos um nadador-salvador por nossa conta e eu e o Pedro éramos os únicos com autorização para acompanhar o bombeiro Laborim até mar alto, onde não tínhamos pé, já fora da zona de rebentação, para nadar e boiar. Onde havia realmente a emoção do mar, em liberdade.

Aos 14 anos, mal chegava o fim do ano lectivo, rumávamos em grupo, de bicicleta para a praia. Ficávamos desde manhã até quase anoitecer enrolados na areia e a sentir o sal a espalhar-se no corpo. Não havia limites. Mesmo quando o sol não aparecia.
Em Julho, quando normalmente os meus pais entravam de férias já eu estava com um bronze invejável e com a pele salgada e dura.

Conheci outros mares, outras costas. Águas mais quentes e com menos sal. Mas guardo na memória a emoção de uma onda grande a chegar e trepar para o colo do meu pai para me embalar na hora do grande salto. Guardo cada mergulho nas águas geladas e a emoção do querer voltar, mesmo quando todos me queriam tirar da água e o mar a puxar-me no seu instinto protector de me devolver a casa.

Lembro-me das tardes de inverno em que ouvia em minha casa,  a 5 km de distância, o som das ondas a rebentar no paredão. Ou das manhãs  de Primavera em que ao abrir as janelas sentia o cheiro fresco da maresia.

Nunca nada me intimidou. Fintei sempre as adversidades com convicção e a determinação de quem sabe o que quer. Chorei muitas vezes e também me senti perdida. Mas ali, perto do mar, consegui encontrar sempre o rumo certo e a coragem de retomar o fio condutor que me trouxe até ali.
Aos 2 anos quando a multidão e o trânsito não me fizeram parar ou ou aos 20 quando apertei o pescoço a um gajo sem escrúpulos enquanto o encostava à parede.

Era esta a Joana que até à pouco tempo me mostrou que não existem impossíveis. Que dá um abraço a uma empregada da limpeza e aperta a mão ao presidente da República, sempre com um sorriso e com a humildade de quem pode ser tudo, mas é essencialmente agradecida e educada para todos.

E é esta Joana que eu perdi. Não sei precisar quando. É esta Joana que se enterrou em montanhas profundas onde não chega a brisa do mar, que não consegue encontrar o norte porque não sabe onde se dá a rebentação das ondas no paredão.
Enganada por um pássaro pouco sério. Que prometeu mostrar outros rumos e outros mares, seguindo cega e sem rumo nas vozes calmas de um egoísta descrente. Encalhei em terras secas, sem que a cordilheira me deixe sentir o mar.

Procuro a Joana que aos dois anos seguiu em frente sem olhar para trás. Sem ter medo de gigantes ou lobos malvados que se escondem na multidão. Procuro a Joana que se aventurava em mar alto, que tratava o oceano por tu sem medo de monstros marinhos ou correntes maléficas. Porque há alturas em que precisamos matar o que nos faz mal e encontrar a nossa verdadeira essência.

Escrever como terapia é também arrumar ideias e filtrar o lixo.
Procuro viva ou morta por quem neste momento me pode devolver o sorriso, porque esta Joana deixou de acreditar em cordeiros que afinal são lobos e em terras livres que afinal são desertos sem fim.

sábado, 18 de junho de 2016

Promessas e praia

Eu sei que no ano passado prometi que este verão seria assim.

Não podendo, por vários motivos, entre eles uma cirurgia abdominal ainda em recuperação, quem vai desfilar em matchi matchi (é assim que se diz em linguagem beta, não é?), são eles.

Estou ansiosa.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Vida, posso tratar-te por tu?

Vida,

Hoje são para ti as minhas palavras.
Sei que me tens tentado contactar, com toda a tua pujança.
Peço desculpa se não tenho correspondido às tuas expectativas.

Já percebi que quem manda nisto tudo és tu, que fazes e desfazes a teu bel-prazer (e que prazer requintado terás). Mas deixa-me informar-te que apesar dos actos não consentidos, acato os teus avisos com a sobriedade de quem aceitou viver. Essa coisa que tu teimas em querer ser rainha. Vida, vida.

Sei que às vezes quererás ser uma mãe protetora e emites alertas em forma de gritos mudos. E eu como qualquer filha, meio orgulhosa, meio adolescente, faço ouvidos de mercador.
Mas há momentos em que o teu lado rude, de uma frieza nórdica e camuflado com o som romântico de violinos me deixa paralisada e com pouca vontade de continuar este contrato que temos vida, aquilo que tu chamas de viver.

E sabes porquê? Porque para mim isto não é viver, é sobreviver. É nunca saber se me vais roubar o chão ou empacotar o coração. É ver-te roubar-me as gargalhadas e trocar por sufocos sem fim. Por corpos sem vida, por batimentos cardíacos suspensos, por gemidos e lágrimas.

E quando penso que tudo já passou. Que o amor tudo cura e já estamos finalmente em paz. Tu apareces com o teu manto triunfante a mostrar que quem decide és tu.

Vida, quero que saibas que te vou corresponder na medida das minhas possibilidades, lá diz o ditado "quem dá o que tem...." mas não estou disposta a abrir mão do essencial. E se insistires, podemos fazer um aditamento a esta brincadeira a que gostas de chamar de "vivências".

Não, não me considero mais forte depois disto tudo. Mas estou disposta a vencer-te pelo cansaço, tal como tentas fazer comigo. Sei que no final a vitória será sempre tua, mas neste jogo só é considerado ponto, uma vitória justa e as tuas....deixam muito a desejar.

Por isso, dá tréguas. Pensa que há tanta alma com contratos caducados e a fazer-te a folha. Concentra-te nesses.
E mostra que és mais mãe do que madrasta. Que os contratos são feitos por palavras,  abraços e apertos de mão e não com armas, bisturis e máquinas de alta resolução.

Obrigada.

Joana

sábado, 11 de junho de 2016

Fim de um ciclo

Na quinta-feira foi a festa de final de ano lectivo do João.
O pré-escolar só termina oficialmente no dia 1 de Julho, mas os restantes  ciclos terminam agora e a partir desta semana os miúdos deixam de ter actividades pedagógicas e passam a ser lúdicas (as mais importantes, entenda-se!).

Aliás, eu nem sei porquê que existem 4 anos de 1° ciclo, se as criancinhas já terminam o pré-escolar a ler, escrever e fazer contas,  e até são avaliadas por isso. Grande "fuck". Ok, passamos à frente.

O João tem 5 anos. O João é mais uma daquelas crianças que completa os 6 anos entre 16 de Setembro e 31 de Dezembro.
Pensei muito sobre isto. Pensei muito se adiava a entrada na primária ou se arriscava. Ouvi a opinião de profissionais.  E ouvi o meu filho, que tem 5 anos mas é uma pessoa, com sentimentos, opiniões e pode decidir também ele o futuro próximo.

A professora entende que pedagogicamente ele está apto. Em todas as áreas completamente capaz de corresponder às apetências do ensino básico.
A pediatra e a psicóloga entendem que se o João adiar a entrada no básico vai desmotivar e entrar  em estado vegetativo em termos pedagógicos nos próximos anos.
O João quer muito ir para a primária e desde que começou este ano lectivo que a única preocupação dele é se falta muito.

A minha única dúvida era realmente o lado emocional. O João é brincalhão, é irrequieto, desafia os colegas, não consegue estar muito tempo a fazer a mesma coisa. E todos sabemos como é o ensino em Portugal, se estiver  cansado de estar sentado não só não pode parar como ainda é possível que fique de castigo e passe o intervalo a terminar os trabalhos!!!!

Não tive dúvidas em retê-lo na creche, entrou para o pré-escolar já com os 3 anos, prestes a fazer 4. Mas agora, tinha muitas dúvidas que retê-lo tivesse efeitos positivos no lado emocional dele.
Por outro lado o João mostrava estar apto a novos desafios emocionais, tanto é que preferia mudar de escola, trocar o certo pelo incerto, e passar para uma escola onde não conhecia ninguém.
Não seria isto o sinal que emocionalmente estaria completamente capaz? Sim.

O João já está matriculado e irá iniciar o ensino básico em Setembro. Não sabemos em que escola, porque como a entrada é condicional, pode não ter vaga nas primeiras opções, mas será certamente uma nova etapa da vida dele.

Neste momento não estou preocupado. Ele está bem, está feliz. E os próximos obstáculos vão ser vividos com serenidade. Não vale a pena questionar a legislação (é o que temos) e também pouco me importa se ele vai ser um aluno excelente. O que eu quero mesmo? É que ele seja feliz e saudável.

Por isso, o João foi finalista. Vestiu a pele de um "engenheiro" e cantou e dançou.

Agora brinca muito filho, brinca tudo o que puderes, que vem aí muitas hora de rabo alapado!!!

terça-feira, 7 de junho de 2016

Maria Rita [11 meses]

Este post foi difícil de arrancar. O corpo não tem ajudado à escrita. Quase uma semana após a cirurgia de urgência, ainda tenho um caminho longo pela frente, mas já consigo ver o sol a brilhar.

No dia em que fizeste 11 meses filha, a mãe colapsou, no meio de todo o azar (sim, tantos anos a amargurar, podia ter resistido mais uns meses) tive muita sorte, médico 5 estrelas:
- que se esmerou em deixar uma marca digna de um bom cirurgião;
- e que me salvou e devolveu anos de vida.

Podia dizer-te que correu tudo bem, mas chorei muito. Foi a primeira noite que estivemos separadas e sem a maminha. Contei segundos, minutos e  horas daquela noite longa, que mesmo após uma anestesia geral foi passada em claro.

Afinal tivemos sorte. Se fosse no dia do teu aniversário seria pior.

Já passaram 11 meses. Já gatinhas como uma louca. E páras e sentas e tiras tudo dos móveis e vais atrás de mim para todo o lado. Ficas de pé, agarrada, mas às vezes acabas por te esquecer e largas tudo.
Tens as pernas  cheias de negras, até pareces um jogador de futebol, como o teu mano.

És eléctrica. Regateira. Faladora. Irrequieta. Possessiva. Doce. Impaciente. Decidida. Aventureira.

Detestas barulho, sons agudos, não gostas que o mano te grite ou alguém que fale alto. Não gostas de ouvir o Jonas a ladrar muito perto ou que salte. Não gostas que eu te vire as costas. Não gostas de comida fria. Não gostas de dormir tapada. Não gostas que te agarrem.

É uma aventura mudar-te a fralda ou vestir-te, viras fera, esperneias, rodopias, viras-te 500 vezes, levantas-te, franzes o sobrolho quando me ouves a dizer "não" e depois encorrilhas a testa e grunhes.

Sorris com a boca cheia...de gengivas. Encorrilhas o nariz para rir e para chorar.

Começaste a falar muito rápido. Tens pressa de discutir por isso não podes estar a repetir palavras devagarinho.
Aquelas palavras todas que dizias há meses? Esquece, é raro o dia em que se apanhe uma.

Estás crescida bebé. E quase a fazer um ano de um amor muito colorido.

Houve bolo sim, quando a mãe regressou a casa e o pai veio matar saudades.
Por falar em pai, ele continua a arrancar-te  as expressões mais fascinantes.

Parabéns meu amor.