terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Até sempre Companheiro!

(a ultima foto que tenho tua é esta, a do dia do meu casamento)

O João foi sempre o menino da sua mãe. Nasceu noutros tempos e do pai só sabia o nome.
Contava com brilho nos olhos que conseguiu a muito custo conquistar a sua bela Helena mas a relação entre as duas mulheres da sua vida não teria sido fácil.
Jovem rebelde, cozia o pão e namoriscava muito.
Foi preso político do Estado Novo. Espancado e torturado o João contava que tinha sido um padre o delator. Assim perdeu um dos órgãos vitais e viveu mais de metade da sua vida apenas com um rim.
Nunca mais suportou a dita "Palavra de Deus" e quando ouvia um padre falar ria, ria muito como a fazer troça da própria vida!
O João leu os clássicos e lutou contra as injustiças. Defendeu a pobreza com o corpo e continuou a cozer pão, amassando com o seu próprio suor durante a juventude tortuosa.
Casou com a sua Helena, teve seis filhos, foi funcionário do BNU e ficou conhecido na terra para a qual se mudou como o Silva do Banco.
Lembro com saudade a forma como ele imitava um macaco, palhaçadas que fazia para nos ver sorrir. Lembro com saudade o sarcasmo e alegria com que brincava com a sua Helena mesmo quando o tempo teimava em ser duro, mesmo quando a amargura dos dias teimavam em reinar.
O João citava os grandes autores e seus admiradores. Lia de fio a pavio quem lhe traduzia em palavras o que na alma gritava.
Fintou durante dez anos um cancro e na hora da morte os médicos diziam que nunca esperaram tanto.
Lutou contra a ditadura e embrulhado na sua bandeira desfilou pelas ruas de Ovar até à sua última morada, num dia de sol mas muito frio.
Numa singela homenagem os seus companheiros de luta ergueram o melhor do seu carácter, ouviram-se palmas, deitou-se o guerreiro.
"Até Amanhã Camarada!" ouviu-se por fim.
Assim será avô, juntos continuaremos a tua luta, a tua rebeldia, juntos estaremos um dia.

1 comentário:

Joana disse...

Nunca se está preparado para a morte, mesmo quando sabemos que ela está à porta.
A vida é uma passagem e só espero ter contribuído para que a tua passagem tenha sido menos dolorosa.

Deixaste-nos no dia 13 de Dezembro, às 2h 45m na Ordem do Carmo. Estavas fraco, magro, abatido. Tiveste desejos e temias a noite. Espero lembrar eternamente o melhor de ti e a forma como juntaste todos os que te eram próximos na hora da tua morte.

Descansa avô. Continua a acreditar. E sonha, sonha muito!