sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

20.12 - 16.04


Acordámos. O pequeno-almoço foi calmo. Chá açucarado e bolachas de água e sal com doce. Ias nascer, nesse dia.
Olhava para a minha barriga e sentia-te ainda só meu. Sabia que sentias tudo o que eu sentia e eu sabia-te bem.

No entanto, precisava saber se tinhas cabelo, se os teus olhos eram grandes ou rasgados, sentir o teu cheiro e abraçar-te. Tinha chegado o dia. Sabia que a partir do momento em que nos tocássemos tudo seria diferente, que o meu euromilhões teria finalmente acertado a conjugação do nosso amor.

Despedi-me do Reinaldo, o gato mais selvagem que já tivemos por perto, despedi-me do Zen, o gato mais calmo e meigo que conheço, despedi-me do Jonas, nosso cão ainda-bebé que me ensinou durante a gravidez a saber o que eram noites sem dormir.

 Conduzi até ao Porto. Vi o pai almoçar à pressa dentro do carro. E entramos na ordem da Lapa, com os sacos (o meu e o teu) e um coração cheio de esperança.

Lembro-me da disposição e decoração do quarto. Lembro-me da Dra. Luísa e da epidural. Lembro-me de descer para o bloco, de ver o pai vestido de médico com uma touca na cabeça e lembro-me de perguntar pela Mariana que tinha acabado de nascer.

A equipa estava quase completa, faltava o pediatra, que tinha ido a correr fazer nascer uma menina ali ao lado. Estava a ficar hipotensa e quase sem sentidos, houve ordem para se cortar.

Minutos depois o pano caiu, vi-te ainda ensanguentado e a Dra. Teresa a dizer que eras gordinho. O pai apertou-me a mão e pedi-lhe para não te deixar. Eram 16h04m.

Enquanto me tentavam pôr as entranhas no sitio, pediatra e enfermeiras tratavam de ti. Tu choravas, o pai babava e eu ouvia.
Quando vieste ter comigo, já vestido e “embrulhado”, beijei-te e senti-te ainda mais meu.

Nesse dia aprendi a viver com o coração fora do meu corpo.  Aprendi a sonhar por ti e a dar valor ao agora. Aprendi a ouvir mais do que falar, e a procurar respostas no instinto, aquele que me ofereceste no primeiro olhar.

Deixou de ter importância a cor do teu cabelo, dos teus olhos ou da tua pele. A partir desse dia quis apenas cheirar-te e sentir-te, abraçar-te e beijar-te. E quando tiveres 16 anos, barba a querer nascer e vergonha que eu te abrace em público, prometo que vou continuar a cheirar-te e a sentir-te, porque isso basta-me para ser feliz!



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