terça-feira, 29 de julho de 2014

A despedida

A despedida da creche está para breve.
Faltam pouco mais de duas semanas para o João deixar de ser um menino e passar a ser um rapazinho do pré-escolar.

Tinha 4 meses e duas semanas de vida quando eu comecei a trabalhar. Felizmente o cordão foi sendo alimentado pelos avós, por isso estive 4 meses mais ou menos tranquila.

Aos 8 meses começou a aventura do berçário e correu quase tudo mal. A educadora que mudou mesmo antes de começar, o colégio que mudava as regras de 5 em 5 segundos, uma auxiliar doida e uma educadora com panca. Valeu alguns amiguinhos, e umas "avós emprestadas" como auxiliares que ainda guardamos muita saudade.

Foi um ano difícil, as conquistas iam sendo alcançadas mas com muitas provações.
Completou o primeiro aniversário depois de várias semanas doente. Começou a andar [ou melhor, a correr]. Viu a fotografia de todos os meninos no quadro de aniversários, menos o seu. Começou a dizer algumas palavras e a tentar construir frases. Perdeu uma avó. Iniciou a sua colecção de bolas. Fomos passar férias a Tróia.

Mudou de escola. E tudo de bom aconteceu.

Uma lufada de ar fresco, um novo ciclo cheio de pessoas novas, determinadas, trabalhadoras, lindas, humildes, doces.
Das coisas que mais me impressionaram, foi logo no primeiro dia, depois de entregar o João num colo novo, e de ver a educadora nova a chegar, ajoelhar-se junto dos "seus meninos" e abraçá-los e beijá-los como se fossem filhos.
Pensei: "caramba, é isto que quero para o meu filho, quero que ele seja feliz e não um número. Quero que aprenda a ser e não a estar. Quero que chore de felicidade e que as marcas sejam de crescimento e não de cabeçadas que ninguém me saberá jamais explicar."

Aqui, nesta nova escola, quase não tive motivos para tristeza. Correu sempre tudo tão bem. O João fazia sorrisos para as fotografias. Aprendia a dizer as palavras direitinhas. Comia bem e dormia melhor. Brincou, brigou, cresceu, mordeu e foi mordido. Aprendeu a partilhar,  a dar beijos e abraços às "suas professoras".
Passou a ter. Deixou de ser esquecido, passou a ser "proprietário". "A minha escola". "A minha Ana". "A minha Sílvia". "A minha Isabel". A Joana (que também foi chamada de mãe). A Ângela com o mesmo nome da avó, mas esta só dele. A Fatinha que continua a fazer parte dos sonhos bons do meu filho. A Márcia que tem um Rui, como o nosso, dele. A Liliana que chegou como um sorriso. A Fátima, que continua presente e ele não esquece. E a Claudia que trouxe novos porquês, já na sala dos grandes.

Foram estas mulheres extraordinárias que ajudaram o meu filho a superar a dor da distância. Que limparam cada lágrima quando o pai tardava em chegar. Que lhe mostraram que os pássaros podem ser aviões que aterram no nosso coração. Foram elas que o abraçaram quando eu não pude estar. Foram estas mãos que cuidaram do meu bebé, do meu menino, muito mais horas do que eu própria.

Vou estar-lhes eternamente grata. Sei que sem vocês, o João não seria o menino que é hoje. Porque cuidar não é só apontar para um nome ou colocar bolinhas às cores no quadro do comportamento. Cuidar é amar os filhos dos outros, todos os dias, mesmo nas asneiras e nas colheres de sopa que caem no chão. E vocês, com todo o carinho e paciência do mundo mostraram ser as melhores profissionais com quem nos cruzámos.

Obrigada, do fundo do coração.


[Este foi o trabalho que fizemos para o livro de finalistas. A dedicatória não foi dos pais para o filho, porque esse ele tem aqui, e tem no nosso dia-a-dia. O elogio foi e será sempre para elas.]

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