quinta-feira, 11 de junho de 2015

Casavas comigo outra vez?

Há umas semanas contaram-me uma história (resumida) e que eu achei muito bonita: um casal, casado há 16 anos e com dois filhos já grandotes, vai agora casar pela igreja.

Tentei deixar os juízos de valor de lado, e sem saber as motivações, fé ou outra coisa qualquer, tentei concentrar-me apenas no momento: casar novamente com o mesmo homem, com o pai dos nossos filhos, mais de uma década depois.

Romântica crónica, daquelas que chora perdidamente ao ler e ver histórias de amor, arrisquei e perguntei a Mr. Rabbit: Casavas comigo outra vez?

Tenho um homem muito pragmático, que de romântico só tem os cabelos grisalhos que se multiplicam galopantemente na cabeça, e que uma hora depois de me pedir em casamento pegou no computador, abriu uma folha de excel e começou a fazer contas e resumiu o nosso amor a fórmulas matemáticas, número de convidados e tudo aquilo que não seria necessário.
Por isso ao ouvir a minha pergunta e sem nunca ter morrido de amor (pelo menos por mim, que lhe devo ter facilitado a vida) respondeu: Eu? Casava, mas para quê?

Um amor pode ter uma história ou apenas viver por si só e ir construindo essa história. Um amor pode ser único ou multiplicar-se, amadurecer, tornar-se diferente, morrer. Um amor pode estender-se a outros amores e renascer, tornar-se mais forte.

Sei que Mr. Rabbit não é gajo de surpresas, de romantismo ou de fazer dourar a pílula. É bicho de obra, rude, bruto, às vezes meigo e com muita necessidade de abraços. A primeira vez que me ofereceu uma flor, foi a mãe que apanhou do jardim e lhe deu para a mão para que ele se fizesse cavalheiro (nem se deve lembrar de tal coisa, embora meta a mãe pelo meio).
Às vezes o nosso filho pede-lhe para apanharem uma flor do jardim para dar à mãe (eu) e ele pergunta-lhe: para quê? 
Na semana passada chegou a casa feliz da vida porque me tinha comprado um presente mas tinha-o deixado no carro, eu calculei logo que o homem tinha perdido a cabeça e tinha comprado um anel, cravado de diamantes (um por cada ano de vida em comum), com as nossas iniciais e a dos nossos filhos, ou conhecendo-o como eu o conheço, nem um batimento cardíaco a mais senti, qual emoção qual quê, eu sei quem tenho. Muitos dias depois lembrou-se de trazer finalmente o "presente" do carro, e o que era? um kit de molas da roupa, das boas, são reforçadas! - dizia orgulhoso por se ter lembrado de algo espetacular e tão útil.

Quando leio, vejo ou ouço histórias de amor que nos fazem chorar, penso que é exactamente como aquelas roupas de bebés, com golas à Camões, folhinhos e rendas deliciosamente românticas: gosto muito, mas sou incapaz de vestir aquilo aos meus filhos. Deve ser assim que entendo o amor, vejo estas histórias, adoro, sei que nunca vou ter isso, que o nosso amor é pragmático, sofrido e intenso e às vezes doce, relaxado e tranquilo.

Mas como todas as histórias de amor, terá um fim. Pode ser um final feliz, morrermos velhinhos, de mão dada, no mesmo dia, ou um fim trágico, seja ele qual for.

Grávida no final do tempo, a contar os dias para ter a nossa filha nos braços, pouco importa como será esse final, quero apenas que cumpras o que mais te peço desde que sou mãe, que cumpras o que mais te peço desde que te vi ficar órfão de mãe (e amputado de pai). Aconteça o que acontecer, em que altura da vida for, não deixes de ser pai, não deixes de ser o pai que os nossos filhos precisam, vive para eles, não deixes que nada nem ninguém vos separe, não permitas que nada seja mais importante na tua vida do que amor dos teus filhos e casa com eles todos os dias, ama-os, ouve-os, educa-os, não os moldes tenta apenas guiá-los, não os obrigues a fazer nada de errado e segue o teu instinto, deixa-os seguir o caminho que escolherem mas mantém-te sempre atento, não os protejas demasiado mas não os deixes a chorar sozinhos, não os desampares, não os troques e não te esqueças nunca deles.

E se fizeres isto tudo, a nossa história já terá feito sentido.

Para ti que mais do que a minha história de amor, és o pai dos meus filhos,
com amor
Joana

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