sábado, 15 de agosto de 2015

Outros dias

Há festa na vila. Este ano, apesar da crise e apesar da pouca adesão (terá sido o meu aviso ou mesmo o frio?), há como sempre pólvora que rebenta a anunciar o início e fim das festividades.

O sábado mistura-se com o feriado, são 8h da manhã e os primeiros morteiros soam precisos para lembrar que há festa, no mesmo momento em que toca o despertador para lembrar da medicação da miúda, que já está de pernas para o ar na muda da fralda.

Reage ao ruído de forma contida. Cerra os punhos, arregala os olhos e fica quieta a tentar perceber o que virá dali. Às vezes chora descontroladamente no fim, como a dizer que ninguém merece.

O filho maior aparece de almofada na mão, enrolamo-nos em beijos e brincadeiras "mãe olha aqui o meu pescoço, queres dar beijinhos queres?".
Há gargalhadas a começar o dia, e o pequeno almoço é preparado lentamente e sem pressão de horários.

Aproveito o jogo de sombras para eternizar as brincadeiras e reforçar a autoconfiança do filho maior que dá gritinhos ao sabor da imaginação.
Nestes abraços e sorrisos vou esquecendo os meus próprios gritos, as minhas próprias dores de alma. Luto para perceber porque o universo nos continua a pôr à prova, todos os dias, sempre pelo lado mais frágil.

O fogo rebenta novamente às 9h e às 9h30. O filho da terra, defensor das tradições, mantém-se na cama, afinal os morteiros são para avisar os que não são de cá, para os das terras em redor (sim, digam-me que estão a ouvir pólvora a rebentar em Lisboa?).

Que Nossa Senhora de Lurdes nos ajude!

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