sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Arroz com feijão

Ou podia apenas dizer, não comes carne mas comes feijão!
Aqui vem um tema muito sensível: a alimentação vs peso das crianças.
O João bebeu leite materno até aos 4 meses. Depois da fonte secar foi introduzida alimentação sólida (papas, sopas e frutas) e complementando com o leite adaptado/lata/vaca (não se iludam que o pó não é feito em laboratório e muito menos de vegetais, é vaca, mesmo vaca, mas adaptado, ok?).
A partir dos 12 meses passou a comer tudo. "Tudo igual aos pais", dizia o pediatra então, e assim foi. Até a sopa passou a ser da nossa mas passada porque os vegetais são difíceis de mastigar por uma criança de 12 meses ainda com a dentição incompleta.
O João nunca gostou muito de leite de biberão e parecia que tinha nascido para comer de colher. Adaptou-se muito bem à introdução de alimentos e a única excepção deu-se com fruta mais ácida (até as maçãs tinham de ser muitoooo doces).
Quando começou a comer iogurtes descobriu um mundo novo. E por ele podia sobreviver apenas a comer iogurtes. Era mais do que um alimento, era conforto, matava fome e sede e ele pedia iogurtes por qualquer pretexto, mesmo sem fome.
Apesar disso era uma criança que se alimentava relativamente* bem, comia sopa, o prato principal e a sobremesa.
Chegámos a ir jantar ou almoçar a casa de outras pessoas e ele pedir sopa, que é normalmente o que as crianças dispensam bem de comer.
Lembro-me um dia encontrarmos alguém conhecido que tem um filho mais velho que o João e quando se falou da alimentação e eu gabar-me que o meu comia bem, ela responder "o meu com essa idade também comia bem!" e eu calar-me, naquele silêncio cúmplice de mãe, mal eu sabia que estas palavras iam mesmo fazer parte do meu dia-a-dia.

A partir de uma certa altura (não sei precisar quando) o João começou a ser um castigo para comer. O pai chama-lhe "praga" e desespera, esquecendo que em criança foi igual ou pior e até tinha um canteiro onde escondia a comida sem que ninguém desconfiasse.
Eu por esta idade também não era nenhum espetáculo a comer, lembro-me de ficar horas sozinha no refeitório do infantário e em casa também, sei de cor o sabor do peixe cozido frio, que acabava por comer já a cozinha estava arrumada.
Para uma mãe (ou pai) isto é um desespero, mas decidi que não queria que o meu filho vivesse o mesmo que eu. Porque concordando ou não com a educação que tive, quero fazer mais e tento fazer melhor, sabendo que isto de educar às vezes funciona por tentativa/erro.

O João começou a dizer que não gostava de carne, depois deixou de comer queijo e fiambre, o peixe ia comendo, de forma quase dissimulada, confesso. 
Optei por forçar em algumas coisas que considerava importante, noutras não. A verdade é só uma, desde que os nutrientes ingeridos lá estejam e passados alguns meses a avaliação seja positiva, não há que preocupar, certo? Vamos esquecer as questões culturais, porque fomos habituados a comer um bife com arroz e batata frita não significa que isso seja uma alimentação saudável e equilibrada, por isso vamos lá pôr os pontos nos is.

Como desde cedo o João faz intolerância ao leite de vaca, mais ou menos desde os 24 meses que bebe leite vegetal (soja, arroz ou amêndoa). Os lacticínios como iogurtes e queijos, como passam por processos de fermentação não se aplicam e não encontrei nenhuma ligação às reacções que costuma fazer com o leite. Mas ele gosta do leite escolar e volta e meia lá deixo que ele beba, basta abusar da dose e fica logo como um cristo! Nestas alturas, e noutras mais dramáticas, penso que o melhor é que se torne mesmo vegetariano.
Só ainda não o fiz (sem radicalismos, claro), porque o pai não concorda, aliás, esta é apenas uma das muitas coisas que não concordamos em relação à educação dos nossos filhos, haja diversidade.



E carne e peixe, será que precisamos mesmo? A resposta é não. Não precisamos mesmo, desde que seja assegurada a ingestão dos nutrientes essenciais ao crescimento. Neste caso, como o único problema é com a carne, faço por substituir por proteína vegetal. E quais são os alimentos que contêm proteína vegetal? Soja, derivados de soja (seitan ou tofu), cogumelos, ervilhas, feijão, lentilhas ou grão de bico. Assegurar que consomem legumes de folha verde para garantir o aporte de ferro e frutas, vegetais e cereais integrais.
É claro que mesmo assim, há dias em que a hora da refeição é mesmo um drama. Ele está cansado, ele não quer comer, e quando não adormece mesmo antes de jantar, as refeições são um desgaste emocional muito grande para toda a família. Porém, faço por estar ao lado dele, acompanhá-lo nesta caminhada, lembro-me de tudo o que me passava pela cabeça, sentada à mesa sozinha sem conseguir engolir uma migalha, e a mexer e remexer no conteúdo do prato.

O pior de tudo isto é a porcaria da sociedade e como é óbvio ouvimos de tudo, sei que na maioria das vezes não é por mal, mas não percebo porquê que as pessoas não se calam. Será que esta suposta liberdade deu o direito ao comum dos mortais de deixarem de entender o que é o respeito e quando dizem determinadas coisas podem estar também a "agredir" o outro?
"Ai o teu filho está tão magro, o que lhe andas a fazer?", "O teu filho vai num lindo caminho a não comer carne, nem queijo, nem fiambre", "João estás tão leve, que o meu filho de 3 anos deve pesar mais do que tu".

Não se preocupem, é verdade que o João não está gordo, pasmem-se mestres das medidas, está no peso ideal para o perfil de crescimento dele, e no percentil 50. Não aumentou praticamente de peso em seis meses, mas cresceu 6 cm. E agora o mais importante, fez análises e está tudo bem, estão os valores todos normais. Estão mais descansados? Já vão dormir melhor? Talvez não fosse mau de todo controlar o peso dos vossos filhos, a obesidade infantil não faz nada bem, nada.


Bem, para quem está com os mesmos  dramas, ou gostaria de saber sugestões sobre a alimentação cá ficam:

- sejam criativos, não precisam de nada tão elaborado como as fotografias que publico de exemplo, mas tentem perceber o que as vossas crianças e adaptarem à alimentação da família;
- se vão fazer bife de peru com arroz e sabem que vai ser um drama, façam o bife estufado com cogumelos e a criança come o arroz com os cogumelos ou em alternativa o bife estufado com cenouras e feijão branco e a criança come o arroz com a cenoura e o feijão, outra alternativa é o bife com massa, tomate, ervilhas e grão de bico;
- usem ovo para substituir a carne e/ou o peixe;
- façam refeições bastante misturadas, que mesmo que a criança peça para separar a carne ou peixe, vai sempre comer alguma coisa e eles não precisam de grande quantidade de proteína. Por exemplo, massa com atum e tomate, por muito que se tire o atum, vai a maioria agarrado à massa;

Por ultimo não tornem as refeições num inferno ainda maior, certamente que isso só vai piorar a relação deles com a comida.

*No primeiro colégio que frequentou dos 8 aos 19 meses fiquei a saber mais tarde, a alimentação foi uma luta. Tendo em conta que ele não falava e soube a verdade quase no fim do ano, ainda bem que não voltou no ano seguinte!

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