segunda-feira, 14 de setembro de 2015

E se um desconhecido te oferecer flores

E se um desconhecido te oferecer flores, na maternidade, uns dias após teres parido a tua filha? Isso pode ser motivo para pancadaria.

Querida filha, daqui a 10 anos quando estiveres a  ler isto, talvez já não se use oferecer flores, mas quando isto acontecia em 1980, ano em que eu nasci, era um acto de amor, gentileza e respeito (dependendo da ocasião). Em 2015, ano em que tu nasceste, ia sendo um banho de sangue que nem te digo nada.

Todos atentos à história que se segue baseada num caso real.

Estava no quarto da maternidade sozinha com a Maria Rita, dos poucos momentos que isto aconteceu, porque tinha indicação médica para estar acompanhada 24h por dia.
Mr. Rabbit tinha saído para ir buscar o pai e o filho para a visita do dia.
Ouço bater à porta, do número 9, e respondo "sim". Bateram novamente e volto a responder "sim, pode entrar".
Quando a porta abre, vejo um senhor com um ramo de flores na mão (rosas brancas) Mr. Rabbit, Mr. Old-Rabbit e o pequeno João.
Percebi  que havia ali qualquer coisa de errado, Mr. Rabbit falava alto e dizia "aqui é o quarto da MINHA mulher e da MINHA filha". E o senhor já um pouco encolhido respondia, "mas é o quarto número 9? É a D. Joana? Então está correcto, eu só venho fazer a entrega, as flores não são minhas."
Mr. Rabbit aliviado dizia "ah, está bem então", enquanto olhava desconfiado para o cartão que acompanhava o ramo e encaminhava o senhor para a saída.
Fiquei a saber depois que tinham subido todos juntos no elevador. Mr. Rabbit foi vendo o indivíduo a aproximar-se da porta e achou que era engano. Após a insistência, e de confirmar que era o número correcto, Mr. Rabbit, no alto do seu metro e oitenta, começou com o pavio a arder, qualquer coisa como "olha-me este rodinha 27 vem-me armado em romântico oferecer flores às minhas mulheres. Era o que havia de faltar, se eu não ofereço ninguém oferece. E se insistes ficas já sem dentes!" 

Mr. Old-Rabbit com o sobrolho franzido, como quem diz "ah que pouca vergonha, aparecer assim de flores na mão para visitar a minha neta. Ops. Será que é minha neta? O melhor é voltar a vê-la só quando tiver 20 anos e tirar parecenças nessa altura." 

E o João, alegre e aos pinotes só dizia "mãe posso deitar-me contigo nessa cama? Posso mãe?"
E assim ficámos os 3.

Tudo acabou bem minha querida filha, o teu pai destacou o cartão e eu confirmei que tinha sido oferta da entidade patronal a desejar felicidades.
Se quiseres ser gentil, não uses estas modernices de entregas à distância, pode correr mal, tendo em conta a cara de pânico do senhor, acho que  foi a última entrega que fez em 2015 e nos próximos anos.


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