domingo, 20 de setembro de 2015

Não vou chorar

Já quase não consigo distinguir os dias úteis do fim-de-semana. Sei vagamente que dia é porque faço um esforço para consultar o calendário e a agenda.
Os meus dias saltitam entre consultas e exames da pequena heroína, que se aguenta à bronca e quando se sente cansada apenas quer conforto e dormir.
Todos os dias, religiosamente, o despertador toca. Seja semana ou fim-de-semana. Não importa o dia, não importa o mês, não importa se a bebé dorme profundamente ou se passou a noite a gemer e a acordar de hora em hora.
Todos os dias o despertador toca para lhe dar o antibiótico que toma desde que nasceu, há 79 dias.
Indiferente ao cansaço, ao dia da semana, se há lanches para preparar ou roupa para vestir, lá vou cambaleando entre o quarto e a cozinha e a viagem de regresso com a seringa na mão.
Os dias seguem entre roupas para tratar, sopa para fazer, almoços e jantares e muita mama várias vezes por dia.
Quando as dores apertam, embalo a miúda entre o armário e a parede, para amparar a sensação de desmaio.
Não há tempo nem vontade para sovar o corpo e despejar a massa adiposa que teima em agarrar-se ao que não é meu.
Depois há aqueles minutos em que vacilas entre deixar o comer queimar, embalar a miúda que chora de sono e dar atenção ao miúdo que está há meia hora a pedir para o vestires.
Mas não vou chorar, porque as lágrimas são indiferentes ao calendário, e para elas não importa se é feriado ou dia útil.
E porque temos sempre quem olhe por nós.

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