quarta-feira, 7 de outubro de 2015

[93]

Se fosses vivo hoje farias 93 anos.
A última vez que te escrevi foi no dia da tua morte. Chorei e ri, como só tu o sabias fazer.

Consigo imaginar-te sentado no mesmo sofá, com a mesma manta e o avante pousado no lugar ao lado.
Consigo imaginar os teus olhos cheios de água ao ver as projecções que a RTP apresentou às 20h em ponto de domingo.
Consigo imaginar as palavras que terias guardadas para a atitude do Sr. Silva.

Partiste quase há 6 anos. Não viste os meus filhos nascer, não conheceste o bisneto com o teu nome, que tanto gostavas de ter tido.
Tu que sempre foste duro nas acções e emotivo nas brincadeiras. Que viveste uma vida apenas com um rim. Que lutaste 10 anos contra um cancro, sempre com disciplina e alguma  "pieguice" que nunca te permitiram ter.
Tu que jogavas dominó com um rigor cirúrgico. Que comias ovos estrelados com açúcar e cereais com morangos e vinho tinto.
Tu que não trocavas a boina por chapéu algum, que usavas bengala sem medo ou vergonha e que treinavas dentro de casa no silêncio da noite.

Já não estás cá avô, e eu quero acreditar que a bandeira que te acompanhou na tua última viagem te tenha dado a paz necessária para poderes regressar a casa de espírito livre.

Imagino-te sentado num jardim, a ler e a ouvir os passarinhos. Talvez tenhas o Nero aos teus pés, preto como a pantera do teu Boavista e andas descalço para te libertares das amarras de uma vida.

Hoje era o teu aniversário. Aquele que nunca gostaste de comemorar e choravas sempre que nos vias a entrar com o bolo. Hoje canto-te os parabéns baixinho e quando acordares já terá passado e será novamente um dia normal.

Parabéns avô João. Escrevo-te com a minha filha nos braços e ofereço-te o rim dela para nos salvares.

Sem comentários: