sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Sobre isto de ser mãe

Quem já não fez aquele comentário tão conhecido "como é possível dois irmãos, filhos dos mesmos pais, com a mesma educação e tão diferentes."

Que grande mentira. Nunca fazemos nada da mesma forma, nem a assinatura.
Não somos os mesmos todos os dias. Há dias bons, dias  maus e dias assim-assim. Temos neuras e não nos suportamos ou apanhamos uma brisa fresquinha e até levitamos. É assim o ser humano, por isso com a educação é igual. Cada pessoa tem o seu carácter, a sua personalidade e nós tendemos a reagir de forma diferente às atitudes com que somos confrontados.

Quando o João nasceu eu não sabia nada de nada. Ou melhor, sabia. Sabia o que era uma babycoque, qual a temperatura indicada para a água do banho e que os bebés choram (o meu sobrinho mais velho tinha, 7 anos antes, conseguido mostrar em todo o seu esplendor, o que era o choro de bebé).
Mas havia muita coisa que não sabia e fui fazendo, tentando, arriscando, sempre naquela forma de aprendizagem do dia-a-dia: tentativa e erro.

O João ainda na maternidade teve  contacto com leite adaptado, da Maria Rita não permiti que isso acontecesse e tinha indicações expressas, no caso de ter de ficar, por algum motivo, nos cuidados intensivos que queria amamentar, tiraria leite nem que estivesse em morte cerebral.

O João passou pouco tempo no colo. Eu era profissional liberal, tinha a pressão de ter de trabalhar, mesmo que fosse em casa (a mesa da sala tinha virado escritório e era o caos) e o João acabava de mamar e dormia na alcofa. Se acordasse era lá que ficava até chorar com vontade. Havia também as teoria (das bocas de barulho) e de alguns livros, que os bebés são uns grandes manhosos e que habituando-se ao colo, não queriam outra coisa.
A Maria Rita tem dias que só dorme no colo e no Sling e se estiver na alcofa dorme 10 minutos ou meia hora e fica com um humor insuportável (próximo de uma mulher em TPM). A minha situação profissional é diferente, mas há dias em que tenho roupa para lavar até ao tecto e um filho mais velho para tratar. Hoje pouco me interessa o que os outros dizem e sei que o bebés só precisam de amor, precisam de  colo e o colo não estraga. Esta minha filha adora aconchego e como mãe nunca o vou negar.

O João nunca foi um bebé de colo ou muito carinhoso (começou a ser mais tarde, talvez quando eu também mudei). A Maria Rita com 5 meses dá abraços, faz festinhas e põe as mãos na minha cara como a pedir "mais, mais, podes ficar assim a vida toda".

Se tenho filhos diferentes, se estou uma pessoa diferente, se vivo uma situação completamente diferente, embora com o mesmo nome, estado civil e na mesma casa, porque não ser também uma mãe diferente?

Não sei se estava certa do João e entretanto fiquei estúpida ou se era verde demais na primeira viagem e agora me entreguei de alma e coração. Nem interessa. Fiz com o João (em bebé) aquilo que sentia ser o melhor. Fui muitas vezes mal informada e desisti por cansaço e porque estava sozinha e sem apoio. Hoje ouço muitas vezes "esta menina está mal habituada" ou "não te chateis dá-lhe um biberão de leite". E eu digo não. Hoje sou uma mãe diferente e mais informada. Hoje mesmo quando não tenho apoio vou buscar força ao fundo do peito e faço a vida continuar, sem negar aquilo que é o mais importante na educação de um bebé e de uma criança: o amor.

Com o João usava a expressão "os bebés só precisam de amor e disciplina".
Com a Maria Rita uso a expressão "os bebés só precisam de amor (e de rotinas)."

Agora quando olho para trás tenho a tentação de pedir desculpa ao João pela mãe que fui, mas sei que a tentativa e erro gerou a mãe que sou hoje. E foi com ele que aprendi que o amor cura tudo.
Aprendi a amar-me com o amor do meu filho. E agora tudo o que eu quero é que eles sejam felizes.

Um destes dias, no meio de mais uma crise de comportamento do João perguntei-lhe:
- o que queres que o pai e a mãe façam por ti? O que queres de nós? Como te podemos ajudar?

E ele respondeu:
- mais amor. *

Porque o amor nunca é demais. Porque o mimo não estraga, fortalece. Porque o amor cura tudo.

* o pai achou que ele me estava a gozar. Eu percebi a mensagem e continuo a fazer o trabalho de casa.

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