sábado, 21 de maio de 2016

Ser tudo é muito difícil

Há dias muito complicados. Difíceis, muito difíceis.

Dias em que tens de ser tudo, tudo o que és e tudo o que não deverias ser. Tudo o que podes ser e tudo aquilo que não queres ser. Tudo.

Há dias em que tudo corre mal.
Vês uma garrafa de vidro partida no chão acabado de ser limpo (e vais encontrar vidros nos próximos 20 anos, mesmo a limpar aquele chão todos os dias).
Aguentas as birras de um e depois as birras do outro.
Tens tantas dores nas costas que sempre que precisas de tirar a miúda do fundo da  cama de grades sentes que te estão a queimar com ferros quentes.
Antes de te deitares é provável que tenhas duas máquinas de roupa para apanhar e outra para estender.
Tratas do cão, dos gatos, das galinhas, da horta e do jardim. Tratas da casa, dos filhos, e puxas pela cabeça como podes ser criativa no pouco tempo que te resta.

Há dias em que só precisavas de alguém que entrasse naquela porta, que trancas religiosamente quando vais deitar os miúdos, e te dissesse "está tudo bem". Que te desse um beijo e um abraço. Te agradecesse, mesmo que não gostes disso, pela mulher que és todos os dias. Por seres mãe e pai e tudo aquilo que os teus filhos precisam que sejas. Que te fizesse o jantar enquanto tu tomavas um banho demorado. E depois como por magia te mostrasse que tudo passa e tudo vai correr bem.

Há dias em que só precisas de um banho e tudo fica mais relaxado. Outros que uma noite bem dormida, e pelos menos 5 horas de sono seguidas, já serviam para esbanjar energia. Outros em que querias apenas que os problemas, que muitas vezes nem são teus, ficassem guardados do outro lado do muro, para quem os tem de resolver.

Mas no fundo, quase sempre basta um sorriso da tua bebé, um corpinho pequeno e quente a aconchegar-se para dormir ou um abraço do teu filho, com direito a beijos demorados e um "és a melhor mãe de todas" para sarar todas as dores.

Há dias em que depois de deitares os miúdos, da casa em silêncio, e finalmente estares esticada na cama, choras, choras muito porque sobreviveste.

Ninguém vai entrar naquela porta. Ninguém te vai fazer o jantar, mas com um pouco de sorte consegues tomar banho sem nenhum deles acordar.

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