terça-feira, 28 de junho de 2016

Sou filha do mar

Cresci numa cidade junto ao mar. Desde que me lembro que o oceano era o meu fascínio.
Mesmo o mar picado do Norte, com marés vivas e correntes fortes nunca me intimidou.
Contam os meus pais que mesmo antes de saber falar em condições, já apontava para a água, roxa de frio a implorar para voltar.

Com pouco mais de dois anos desapareci na praia. Depois de desesperadamente terem procurado tudo e em todo o lado, fez-se uma espera junto ao mar, talvez a rebentação devolvesse o corpo pequeno deste peixinho de água salgada. Não devolveu. Fui encontrada na gelataria onde nesse verão o meu tio mais novo estava a trabalhar, estava bem e a comer um gelado.

Sempre fui independente. Nunca aceitei um não. E nem mesmo com dois anos achei que uma avenida com trânsito intenso em pleno verão me seria barreira para conseguir o que queria.

Fui crescendo. Fui dominando o mar. Nas férias do ATL a praia era o nosso destino. Na hora de molhar os pés, tínhamos um nadador-salvador por nossa conta e eu e o Pedro éramos os únicos com autorização para acompanhar o bombeiro Laborim até mar alto, onde não tínhamos pé, já fora da zona de rebentação, para nadar e boiar. Onde havia realmente a emoção do mar, em liberdade.

Aos 14 anos, mal chegava o fim do ano lectivo, rumávamos em grupo, de bicicleta para a praia. Ficávamos desde manhã até quase anoitecer enrolados na areia e a sentir o sal a espalhar-se no corpo. Não havia limites. Mesmo quando o sol não aparecia.
Em Julho, quando normalmente os meus pais entravam de férias já eu estava com um bronze invejável e com a pele salgada e dura.

Conheci outros mares, outras costas. Águas mais quentes e com menos sal. Mas guardo na memória a emoção de uma onda grande a chegar e trepar para o colo do meu pai para me embalar na hora do grande salto. Guardo cada mergulho nas águas geladas e a emoção do querer voltar, mesmo quando todos me queriam tirar da água e o mar a puxar-me no seu instinto protector de me devolver a casa.

Lembro-me das tardes de inverno em que ouvia em minha casa,  a 5 km de distância, o som das ondas a rebentar no paredão. Ou das manhãs  de Primavera em que ao abrir as janelas sentia o cheiro fresco da maresia.

Nunca nada me intimidou. Fintei sempre as adversidades com convicção e a determinação de quem sabe o que quer. Chorei muitas vezes e também me senti perdida. Mas ali, perto do mar, consegui encontrar sempre o rumo certo e a coragem de retomar o fio condutor que me trouxe até ali.
Aos 2 anos quando a multidão e o trânsito não me fizeram parar ou ou aos 20 quando apertei o pescoço a um gajo sem escrúpulos enquanto o encostava à parede.

Era esta a Joana que até à pouco tempo me mostrou que não existem impossíveis. Que dá um abraço a uma empregada da limpeza e aperta a mão ao presidente da República, sempre com um sorriso e com a humildade de quem pode ser tudo, mas é essencialmente agradecida e educada para todos.

E é esta Joana que eu perdi. Não sei precisar quando. É esta Joana que se enterrou em montanhas profundas onde não chega a brisa do mar, que não consegue encontrar o norte porque não sabe onde se dá a rebentação das ondas no paredão.
Enganada por um pássaro pouco sério. Que prometeu mostrar outros rumos e outros mares, seguindo cega e sem rumo nas vozes calmas de um egoísta descrente. Encalhei em terras secas, sem que a cordilheira me deixe sentir o mar.

Procuro a Joana que aos dois anos seguiu em frente sem olhar para trás. Sem ter medo de gigantes ou lobos malvados que se escondem na multidão. Procuro a Joana que se aventurava em mar alto, que tratava o oceano por tu sem medo de monstros marinhos ou correntes maléficas. Porque há alturas em que precisamos matar o que nos faz mal e encontrar a nossa verdadeira essência.

Escrever como terapia é também arrumar ideias e filtrar o lixo.
Procuro viva ou morta por quem neste momento me pode devolver o sorriso, porque esta Joana deixou de acreditar em cordeiros que afinal são lobos e em terras livres que afinal são desertos sem fim.

2 comentários:

voando.... disse...

tenho dentro de mim uma parte dessa Joana que tão bem conheci..... quem sabe se não te poderei devolver uma parte do que procuras????...... és linda!!!!!!

Joana Pereira da Silva disse...