quarta-feira, 15 de junho de 2016

Vida, posso tratar-te por tu?

Vida,

Hoje são para ti as minhas palavras.
Sei que me tens tentado contactar, com toda a tua pujança.
Peço desculpa se não tenho correspondido às tuas expectativas.

Já percebi que quem manda nisto tudo és tu, que fazes e desfazes a teu bel-prazer (e que prazer requintado terás). Mas deixa-me informar-te que apesar dos actos não consentidos, acato os teus avisos com a sobriedade de quem aceitou viver. Essa coisa que tu teimas em querer ser rainha. Vida, vida.

Sei que às vezes quererás ser uma mãe protetora e emites alertas em forma de gritos mudos. E eu como qualquer filha, meio orgulhosa, meio adolescente, faço ouvidos de mercador.
Mas há momentos em que o teu lado rude, de uma frieza nórdica e camuflado com o som romântico de violinos me deixa paralisada e com pouca vontade de continuar este contrato que temos vida, aquilo que tu chamas de viver.

E sabes porquê? Porque para mim isto não é viver, é sobreviver. É nunca saber se me vais roubar o chão ou empacotar o coração. É ver-te roubar-me as gargalhadas e trocar por sufocos sem fim. Por corpos sem vida, por batimentos cardíacos suspensos, por gemidos e lágrimas.

E quando penso que tudo já passou. Que o amor tudo cura e já estamos finalmente em paz. Tu apareces com o teu manto triunfante a mostrar que quem decide és tu.

Vida, quero que saibas que te vou corresponder na medida das minhas possibilidades, lá diz o ditado "quem dá o que tem...." mas não estou disposta a abrir mão do essencial. E se insistires, podemos fazer um aditamento a esta brincadeira a que gostas de chamar de "vivências".

Não, não me considero mais forte depois disto tudo. Mas estou disposta a vencer-te pelo cansaço, tal como tentas fazer comigo. Sei que no final a vitória será sempre tua, mas neste jogo só é considerado ponto, uma vitória justa e as tuas....deixam muito a desejar.

Por isso, dá tréguas. Pensa que há tanta alma com contratos caducados e a fazer-te a folha. Concentra-te nesses.
E mostra que és mais mãe do que madrasta. Que os contratos são feitos por palavras,  abraços e apertos de mão e não com armas, bisturis e máquinas de alta resolução.

Obrigada.

Joana

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