sábado, 6 de agosto de 2016

A minha guerreira

Maria Rita, fizeste 13 meses na segunda-feira passada. Estávamos já em contagem decrescente.
Antes do dia D, houve consulta de anestesia e análises. Muito choro, muitos gritos.
Na noite de quinta-feira, com 13 meses e 3 dias arriscaste os primeiros passos sozinha como a lembrar que há datas importantes e que nos deixam alegrias no coração. Não há registo, desculpa.
E no dia da cirurgia estavas bem disposta e risonha, apesar do jejum, sempre alegre e com muita energia.
Entraste para o bloco operatório ao colo da enfermeira. Estavas bem. Não sabias para onde ias e deves ter confiado que seria um sítio bonito. Já nos tinham explicado todos os procedimentos e tinhas uma pomada analgésica nas possíveis entradas de cateter para aliviar o sofrimento. Iria ser colocada uma máscara com o sedativo para depois ser feita a restante instrumentalização e tu ias chorar, "choram todos".
Disseram-nos para regressar uma hora depois, para passear, tomar café e apanhar ar.
Uma hora depois, já no lado de fora da porta e ninguém nos chamava, olhava fixamente o relógio pendurado no corredor. O coração a encolher. Encostei a cabeça no colo do pai e pedi ao nosso "Pai" para te guardar, para continuar lá, por mim, para te abraçar e te dar beijinhos pequeninos, para te afastar as madeixas da testa e te segredar "está tudo bem".
O pai num misto de ansiedade e de fuga para a frente, levantou-se, entrou e dirigiu-se para a zona de recobro à procura de informação e disseram que tinhas acabado de chegar, que já te podíamos ver.
Ao longe, consegui ver as últimas manobras, pediram-nos desculpa porque normalmente os pais só entram depois. Vi o teu corpo pequenino numa cama grande, a máscara foi retirada e o oxigénio estabilizado, puseram o ar quentinho por baixo do lençol e disseram que ias dormir o tempo que quisesses ali.
O cirurgião dizia que tudo tinha corrido bem, como planeado. Estava sereno. Era a terceira cirurgia e ainda havia mais uma.
Sentei-me na tua cabeceira, beijei-te o rosto e arranjei-te a franja do cabelo teimoso. Precisava muito de te sentir, de te beijar, de te dizer ao ouvido "estou aqui meu amor, a mãe vai estar sempre aqui e tu vais ficar boa".
Passaram 45 minutos e quando abriste os olhos e me viste, desataste a gatinhar para o meu colo. Choravas sempre que alguém se aproximava e aninhaste-te em mim.
Consigo adivinhar o teu sofrimento por trás daquela máscara, a partir deste momento pessoas com batas não podiam aproximar-se de ti que havia um choro compulsivo. Estavas assustada, não me podias ver longe, nem para ir à casa de banho. Passei a ser o teu colchão, o teu bálsamo, o teu ninho.
Voltaste a sorrir hoje de manhã. Os olhos muito inchados mas já com uma energia perigosa para quem tinha tirado parte do rim. Muitos tubos, havia sangue a ser drenado para um saco, havia máquinas a apitar, havia medicação intravenosa e muitas lágrimas para chorar.
És a minha guerreira, meu amor. E lembra-te que há um propósito para tudo na vida, este será o teu e já mostraste ter coragem para o devorar.
Nota: obrigado a todos os que estiveram connosco e que continuam ao nosso lado para nos dar a mão e partilhar a fé. A Maria Rita está bem, a normalidade possível num pós-operatorio. E tudo o que precisa é de descansar para ter ainda mais força para vencer. Os bebés pequenos não se visitam, enviam-se beijos e abraços divinos. 

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