sábado, 29 de outubro de 2016

Sair do armário

É nos momentos de desespero que muitas vezes tomamos decisões. Mais ou menos acertadas, um impulso que nos faz ter coragem para resolver alguma coisa que se arrasta. Pode correr bem, pode correr mal.

O que eu sinto, é que nos últimos tempos, na minha vida, tudo se tem precipitado de forma tão catastrófica que a solução acaba por ser preto no branco, do dia para a noite. Sem tempo para reflexões profundas ou indecisões.

Ao contrário do João que foi sempre uma criança muito fácil para dormir, a Maria Rita é/era uma tormenta. Passei do céu ao inferno e houve momentos em que não me reconheci. 

Nunca pensei passar por momentos assim. A privação de sono é muito má durante dias ou semanas, mas meses, começa a ser completamente desolador.

E o pior de tudo é que a vida continua. Podia parar ali, naqueles 15 minutos que dormes e até já começas a achar que é bom e gratificante.

Passei por momentos em que me senti enlouquecer. Poucas pessoas com quem pudesse falar ou partilhar o cansaço extremo, até porque não queria ouvir o que tinham para me dizer (já basta quando ouço o que não quero a quem não perguntei ou pedi opinião).

Há muito tempo que andava a tentar ler um livro sobre o treino do sono ("10 dias para ensinar o seu filho a dormir"). Mas não sei se estava mesmo desmotivada ou se o cansaço era tal que não conseguia concentrar-me e/ou motivar-me para a leitura. Por este motivo durante dois meses consegui ler umas 10 páginas ou  pouco mais.

Na semana passada, após uma noite terrível a acordar de 15 em 15 minutos (duvido que tenha dormido entre os despertares nocturnos com gritos e choro) percebi que tinha que fazer alguma coisa por mim, por nós. Apesar do cansaço e das várias horas em jejum no meio de 3 colheitas de sangue para a prova de glicose do segundo trimestre, consegui motivação extra para ler o livro até à parte mais importante: a prática.

Tinha intenções de aplicar o que estava a ler quando o pai viesse na visita mensal (sim, o pai ainda continua por lá). Para ter algum apoio no caso de as coisas correrem muito mal (nos meus sonhos maus, a coisa corre mal quando me rebenta a bolha e eu estou sozinha com duas crianças, entenda-se!).

Mas nessa mesma noite, depois de meia hora com 10kgs de boneca ao colo a embalar e adormecer, deito-a na cama dela e no mesmo segundo levanta-se e começa a rir e a falar como se já tivesse dormido uma bela soneca.

Eu que estava cansada até ao tutano e depois de um dia mau, muito mau. Disse para mim "acabou, a partir de agora tolerância zero e não há desculpas".
Expliquei calmamente à Maria Rita que ia ser uma noite difícil para as duas, mas que depois disso tudo ia correr melhor e íamos estar muito mais felizes. 

A ideia era que ela adormecesse na cama dela, sem ajuda. Eu estaria sempre ali, sempre presente para acalmar e mostrar que ela conseguia, sem medos.
1h30 depois a Maria Rita tinha adormecido sozinha. Depois de rir, bater palmas, cantar, levantar-se e deitar-se 500 vezes, voltava a levantar, mais um abracinho à mãe, mamã 1000 vezes seguidas, lambidelas na minha cara em forma de beijinho e por fim plof, adormeceu.

Nessa noite os despertares nocturnos foram mais tranquilos, sem gritos e mais curtos.
Na noite seguinte demorou 15 minutos a adormecer sozinha.
Na terceira noite demorou meia hora, porque o irmão interferiu na hora de deitar.

Os despertares nocturnos melhoraram substancialmente, ao acordar e durante o dia tinha uma menina muito mais feliz e bem disposta.

Mr. Rabbit chega e nesse mesmo dia eu tinha reunião na escola do João depois de jantar. Deixo os filhos com o pai e prometo não fugir para parte incerta (sim, às vezes também me passa isso pela cabeça!).
A instrução que deixei foi que a menina não podia adormecer no colo.
Ultimato sério e em tom de ameaça antes de sair de casa: "Aconteça o que acontecer não pegas nela ao colo."
Havia excepção: só se vomitar ou desmaiar.

Quando consegui enviei mensagem a perguntar como estava a correr. Resposta: adormeceu num minuto.

Há dias em que adormece mais rápido, outros que demora mais. Tal como nós, certo? A verdade é que há 10 dias que a Maria Rita não adormece ao colo. Há 10 dias que ela dorme sozinha sem bengalas. Os acordares nocturnos são pouco frequentes, e menos dolorosos (resolvidos num segundo ou na pior das hipóteses num minuto).

Acho que posso respirar. Acho que a minha filha saiu do armário, ou melhor, saiu-me do colo e passou a saber o que é dormir.

Claro que continua a haver muito mimo e colo e embalo, mas não para dormir. Às vezes quando chega da escola vem com tantas saudades de mãe que nem quer dormir. 

Nesses dias a sesta do final da tarde é mais complicada e muitas vezes salta para o jantar.
Há rotinas, muitas, mas sempre em função da vida familiar e também dos horários do irmão. Vamos fazendo ajustes, sem nunca quebrar a promessa: não adormecer ao colo.

O José agradece, e o meu útero também, é que isto é elástico até deixar de ser....

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