sexta-feira, 11 de novembro de 2016

E agora?

O que fazer quando nos destroem?

Agarro-me aos meus filhos e choro. Choro por dentro, um grito surdo.

O que se faz quando depois do choque, o luto te percorre o corpo? Como explicas aos teus filhos a dor que eles reconhecem em cada olhar? Como proteger o ser que cresce dentro de ti, de tanta dor? Como?

Abraço-os. Choro por pensar que não vou conseguir ensinar-lhes o amor e que tudo aquilo que tenho para lhes dar não será o suficiente.

Tenho um corpo pequenino a mover-se dentro de mim. Sinto-lhe a revolta sempre que o meu coração espreme e grita. Sinto-lhe os batimentos inquietos quando as lágrimas que consigo controlar lhe apertam o peito.

Como explicar a um filho a dor? Como arranjas força para te reerguer e continuar a dar o melhor de ti?

Exactamente no mesmo dia, seis anos depois. Novamente com uma vida a crescer dentro de mim. Mas agora sem emoções. Sem atenuantes.

Sozinha, com dois filhos nos braços e outro a espernear para sobreviver dentro de mim. Sem tempo para mergulhar na banheira e tentar lavar a dor que se estranha e me leva os últimos sorrisos.

Tentas encontrar no horizonte o destino. A dor que se alastra vai seguindo a luz. O tempo deixa tudo mais leve. Mesmo na dor.

Escolhes o verbo. Repensas a divisão e começas a subtrair. Sem regras de concordância, com palavras esdrúxulas e um coração fraccionado. Há um dia que tudo acaba. A linha chegou ao fim.

E agora?

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