segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Nunca fui princesa

Já me disseram que continuo a acreditar que posso salvar o mundo e que isso não é bom.

Recentemente ouvi que acredito que a vida é um conto de fadas, cor-de-rosa.

Eu até nem simpatizo com o cor-de-rosa, e nunca fui princesa. Fui perdendo vários sapatos ao longo da minha vida.
Nunca conheci um príncipe mas cheguei a andar num cavalo branco. Nessa altura não sabia ainda que os cavalos podem tomar a forma de ratos e os coches de abóboras.

Nunca fui princesa, nunca sonhei sê-lo. Devo ter sido princesa no mundo de alguém e muitas vezes tratada assim. Fui sempre bem resolvida e sonhadora.

A minha fé aumentou depois de ser mãe. Passei a acreditar que não conseguia mudar o mundo, mas que com amor tudo seria possível, até a cura.

Nunca fui princesa, e chamo a minha filha de boneca, quase nunca de princesa. Não quero que ela acredite em contos de fadas. Não quero que a minha filha tenha os olhos da cor do mar das caraíbas como o irmão, que fale espanhol e que dance música flamenga.
Gostava que fosse feliz, imensamente feliz, gostava que os irmãos a protegessem, e que um dia pudesse acreditar que o amor tudo cura.

Sempre fui lutadora e persistente, mas isso era quando acreditava que podia mudar o mundo. Depois a guerreira deu lugar à crente. Porque acreditar no amor não deve ser um defeito.

Acreditei e acredito que o amor possa curar a minha filha, que a doença que nasceu com ela possa ser passado. Sofro desde o dia em que o diagnóstico foi traçado e acredito que um dia ela vai ter orgulho nas cicatrizes que tem no corpo.

Nunca acreditei que vivia num conto de fadas, até porque a vida tem me deixado muitas pedras no caminho e eu não as guardo, porque sei que nenhum castelo pode ser erguido em lágrimas e sofrimento.

Nunca fui princesa. Quase nunca usei saltos altos. E mesmo no dia que podia ser princesa recusei usar véu.

Nunca pesei menos de 60 kgs, a não ser em criança. Aprendi a olhar o mundo nos olhos e a dar mais valor ao coração do que a aparência física.

Nunca fui princesa e recomecei muitas vezes, porque até a vida precisa de botão de reset. Nunca tive medo de mudanças, mesmo quando elas são repentinas.

A morte não me assusta, a minha. Vivo tranquila. Mas depois de ser mãe desejo continuar estar viva e ser o pilar dos meus filhos. Amar e cuidar deles como ninguém o saberá fazer.

Nunca fui princesa, mas tenho muitas saudades do tempo em que acreditava em borboletas, que me sentia livre e o mar me chegava para acalmar as dores.

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