sábado, 31 de dezembro de 2016

Adeus 2016

Chegaste triunfante. Eu quis acreditar que serias bom, que tinha conseguido aceitar o impossível e que o tapete não voltaria a fugir-me dos pés.

Tinha acabado de dizer a mim própria que não me revoltava com o que viesse, fosse o que fosse. Aceitei que a minha filha nasceu com uma malformação congénita, que tinha uma doença crónica e íamos lutar todos os dias para que fossemos mais felizes e sem medo dela (a patologia renal).

Após muitos meses ausente voltei ao trabalho. Voltei aos transportes públicos, aos fones nos ouvidos, aos livros devorados nas viagens, de pé, entre um amasso e um encontrão.
Voltei a sentir a incompreensão, a injustiça, o desrespeito, a coacção. Voltei a dar mais de mim do que eu própria tinha para dar. Cheguei ao limite. Percebi que ao esgotar-me por causas falíveis estava a perder o melhor da minha vida, da minha saúde, dos meus filhos.

Soube parar. Reaprendi a respirar. Chorei em cada ameaça e recaída, e chorei por dentro em cada ida às urgências com os meus filhos, com cada cateter, com cada espera, com as sentenças e certezas que em medicina se traduzem por "talvez".

Vimos partir o pai. 6 meses era a previsão. Eu nunca acreditei. Sabia bem quais as areias que estavam a ser movidas. Já sem ilusões. A Maria Rita tinha acabado de completar 9 meses. O João ainda sem saber o que fazer às emoções.

Se pudesse escolher um mês, deste 2016, seria Maio. Entre o cansaço instalado, o reaprender a viver sozinha com duas crianças, a depender só de mim, a gerir emoções (as minhas e as deles), a tranquilidade que se instalou por umas semanas. A primeira visita do pai que resultou numa nova vida a crescer sem pré-aviso.

Mas não era esta a missão que 2016 tinha para mim. Entre dores descontroladas e a angústia de deixar os meus filhos (e a Maria Rita tão bebé e ainda a ser amamentada), Junho trouxe-me uma cirurgia de urgência. Lembro-me de acordar da anestesia e pensar "estou viva". Ouvia vozes, reconheci a da minha irmã, mas não consegui abrir os olhos, nem falar e muito menos mexer-me. Aos poucos fui voltando ao meu corpo. Cada minuto que passava longe dos meus filhos era um alfinete cravado no meu coração.

Nesse mês, tudo parecia estar escrito para me pôr à prova. Ainda a procissão ia no adro e já havia sinais intermitentes a apitar. Avisos. Amuos. Discussões.
No dia em que o cirurgião me deu alta, 3 semanas após a cirurgia, fiz planos durante umas horas. Escrevi sonhos. Até suspirei por uma nova terapia com abdominais hipopressivos.
E foi então que entre ameaças de doenças menos boas, surge a confirmação que estava grávida.
Lembro-me de ter ficado em choque, de ter esquecido tempos, datas, trimestres. Fixei apenas a data provável do parto e que tinha de ser rápida a marcar os exames do primeiro trimestre. Como se estivesse a ser atropelada por um trator agrícola, a alta velocidade. Entre a negação e a tentativa de tornar a notícia consciente, digerível.
A minha amiga S. que me esperava para almoçar e a avalanche a triturar-me a alma sem parar. Lembro-me daquele abraço, um bálsamo a tentar controlar as lágrimas de desespero. Lembro-me das piadas, misturadas com a falta de apetite. Lembro-me de não conseguir estar sozinha porque o mundo desabava. Lembro-me das viagens de carro a chorar. Lembro-me de ter feito contas, vezes sem fim. De olhar para o calendário, incrédula. De perceber que a primeira visita parental tinha sido um tiro certeiro, conciliado com outros factores tão válidos a provar que em medicina tudo pode acontecer. De me sentir prisioneira dentro de mim própria. De me questionar "porquê" e de não encontrar respostas.

Pedi ao julho tréguas e até achei que tinha feito as pazes comigo. Vi a minha filha a completar um ano de vida, e a cirurgia a ser marcada.

Em agosto dividida entre o medo de perder a minha bebé e a espera de um milagre que a salvasse. O calor. Os incêndios. Os dias e as noites que se uniam, discretamente longos.
A barriga que crescia de forma galopante, as dores que me foram acompanhando (e crescendo). A luta para que o João conseguisse entrar na escola, na opção que era dele por direito, se a lei não fosse tão enviesada e interpretada por meros aprendizes de doutores.

O setembro chegou de mansinho, matreiro, com um sabor enganador. Mostrou-se tranquilo e doce. Foi-nos oferecendo sorrisos que encobriam o que o coração gritava. Trazia chocolates tamanho XXL embrulhados em caixas douradas, com sotaque.
Vi os meus filhos a regressar à escola. Quase enlouqueci com a dolorosa re-adaptação da Maria Rita à creche.

Outubro. Podia ser apenas mais um mês. Mas começava tudo a complicar-se. As intercorrências víricas da pequena, acompanhar o início da vida escolar do maior. E as actividades dele, incompatíveis com a minha condição física e os estados de saúde da irmã.
As febres altas dela, a contrastar com as ausências parentais que continuavam a marcar terreno. Os sonhos que me iam alertando para uma realidade paralela que tu achas só existir nos filmes. As notícias que caiam como bombas. E no meio de tudo isto fazer acontecer coisas boas. Criar.

Novembro, mês de castanhas a saltar quentinhas, de lareiras a crepitar e tardes de domingo enrolados em mantas no sofá. Podia ser só isto. O sonho que ingenuamente continuava acreditar ser real. Mas a imagem que guardo deste novembro é bem mais dolorosa. Portas que se abrem e não voltam a ser fechadas. Testemunhos de doces envenenados, embrulhados em papel colorido.
E se te confirmassem, novamente, uma patologia renal no bebé que cresce dentro de ti?
E se as dores que tomaram conta do teu corpo te impedissem de dormir, comer ou sorrir?
E se a juntar a tudo isto estivesses sozinha com duas crianças pequenas?
E se o teu filho, ainda com 5 anos, fosse forçado a saber de cor os números de emergência médica para te poder salvar?
Quem ousou tirar-te novamente o tapete? Quem pintou de preto esta história e te deixou a morrer por dentro?

Esta podia ser a imagem final do ano. Sem confetis nem purpurinas. Rodeada das minhas pessoas, que me amparam sempre.

Dezembro trouxe-me novamente alegrias e a certeza que pessoas boas vão continuar a fazer parte da minha vida.
O último mês grávida de um filho relâmpago mas muito doce.
Quero acreditar que ele é o "mensageiro", que me vai mostrar que sair de gatas da cama, de madrugada, a gemer agarrada à barriga é o último patamar para alcançar o céu.

Terminas hoje 2016. E não te guardo saudades.
Ano bissexto. De profecias que se cumpriram.

Que eu saiba entender. Que eu saiba perdoar. Que eu saiba esquecer. Resoluções de ano novo? Sim. Eu.

Venha 2017!

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