quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Semáforos

Hoje lembrei-me de ti.

Hoje lembrei-me de ti. Talvez porque passei naquele largo onde jantámos pasta e te vi a devorar os grissini para não teres de me observar.

Hoje tudo me lembrava de ti. As ruas, os carros, os semáforos, até as músicas que tocavam na rádio.

Hoje lembrei-me de ti. Não sei quantos anos passaram desde que partiste mas recordo bem o ano em que morreste, em que o semáforo virou para vermelho e tu seguiste em frente sem pressa e ligeiramente a alucinar.

Hoje voltei a sentir-me leve e a interrogar-me. 

Hoje tentei parar o relógio e o calendário, inverter as regras e as certezas. Mas o semáforo voltou a mostrar-se irredutível. Sem fim.

Porque a vida é mesmo isto. 
Deixar a porta aberta, sacudir os trapos na janela, deixar o semáforo virar. Lembra-te, depois do vermelho está o verde, é só esperar. Esperar um tempo que nem sempre é o nosso, mas esperar.

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