sexta-feira, 24 de março de 2017

24 de Março

Tenho uma relação amor-ódio com este dia.
Não devia ser assim. Não devia ser esta a forma de o viver.
Não me consigo lembrar quando foi que o comecei a recear, talvez quando a vida me tirou pela primeira vez o tapete, tinha 19 anos e a minha irmã numa cama de hospital com a situação clínica muito critica.
Acho que nesse dia me condenei por estar viva e ser feliz. Acho que nesse dia recusei recordar este dia como algo bom.

Nos anos seguintes, pior do que saber que este dia existia no calendário, doía só de pensar que teria de o viver e obrigatoriamente me sentir feliz.

Comecei a suportá-lo melhor quando o João nasceu e principalmente quando começou a dar valor ao bolo, às velas e a cantar os parabéns enquanto batia palmas.

Sinto que quando a vida me é mais madrasta, não consigo processar tão bem o perfume da felicidade, algo se desfaz quando o sinto.

Hoje quero permitir-me viver, apenas. Sem que a obrigação da celebração me consuma as últimas forças.

Hoje vou encarar a vida de frente, com a  humildade e a honestidade que sempre me caracterizou.

Hoje não vou perguntar o porquê? Não vou tropeçar nas pedras que colecciono todos os dias.

Hoje recuso-me a sentir sorrisos falsos, presenças​ fingidas ou presentes envenenados. Porque sou importante de mais para me entregar a quem não sabe cuidar.

Este ano, nem as frésias vieram para a festa. Mas eu prometo que lhes vou procurar o perfume e permitir-me estar em paz comigo e feliz.

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