domingo, 23 de abril de 2017

Matem a super-mulher

A vida tem-me ensinado tanta coisa, e da pior maneira possível.
Temos pena, diriam alguns. Às vezes só aprendemos mesmo a dar com a cornadura na parede. Ossos do ofício.

Hoje de madrugada o meu filho José, com três meses apenas, enfiou um dedo no meu olho. Ensonada e cansada, a resistência à dor pareceu-me algo não possível de suportar. Ele continuava a mexer-se com alguma genica e eu sem poder gritar, lavar a cara e a observar o mundo apenas com um olho aberto.

As opções não eram muitas. Mas passou-me pela cabeça dar uma de super-mulher. E agora pensando melhor, vejo que tem sido a minha postura ao longo da vida.

Curiosamente, ontem no Facebook decidi fazer um jogo com o João, que tinha visto no perfil de uma colega. Copiei as perguntas e ouvi as respostas dele.

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Faça com seu filho/filha e veja o que ele te responde.

1- Qual o nome da tua mãe? Joana (esta era fácil)
2- Ela é gorda ou magra? Magra (achei estranho e perguntei se não havia engano, ele respondeu "já estás a ficar magra")
3- Alta ou baixa? Baixa (hesitou, mas em comparação com o pai lá conseguiu encontrar um padrão)
4- O que a mãe  gosta de comer? Pão (really?)
5- O que ela gosta de vestir? calças de ganga
6- Quantos anos a mãe tem? 37
7- Quantos kg ela tem? Não sei (nem precisa saber, mas o pai ensaiou dizer-lhe a verdade e ainda por cima uma verdade distorcida)
8- Qual o presente que gostavas de dar a ela? Um vestido (lá está uma coisa que eu não aprecio, mas se o filho gosta não vamos contrariar)
9- Quem a mãe ama? O Pai. E os avós mais a mim e aos manos. (Vou ter de inverter esta tendência)
10 - O que a mãe é? Uma super mãe (não está mau, mas foi aqui que a cabeça começou a dar voltas)
11- O que ela gosta de fazer? Cozinhar (já gostei mais, agora pagava para quem o fizesse por mim de forma saudável)

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Ao ler isto e tendo tido uma noite má, a única coisa que acho que está mal nas respostas do João é o "super mãe".

Porquê?

Porque nós não temos de ser super em nada. Em NADA. Custa-me que ele me veja assim. E talvez a culpa seja minha.
Há um ano atrás estava a passar por uma fase complicada a vários níveis. Pessoal, profissional, como mãe ainda sem saber como lidar com a doença da Maria Rita, sentimental ficando mais uma vez sozinha num relacionamento que se quer a dois e vivenciado, com uma enorme fragilidade física que culminou numa cirurgia de urgência e depois a gravidez não programada que seria a cereja no topo do bolo.
Mas no meio disto tudo, ainda plantei uma horta, sobrevivi à cirurgia da Maria Rita então com 13 meses (e comigo já grávida) e aguentei a gravidez até às 37 semana.
Dei conta do recado e ninguém me agradeceu por isso. Ninguém valorizou o meu esforço, ninguém me abraçou pelas noites em branco, ninguém me trouxe uma panela de sopa ou um tacho de arroz. Sobrevivi com o sorriso dos meus filhos. Mas isso não me dá o direito a rótulos.

Cansada de ser super. Cansada ainda mais que os meus filhos me vejam como super. Eu não quero ser super, quero ser apenas eu. Viver e ser feliz, se não for pedir muito.

Aprendi a não esperar nada dos outros. Pensando melhor, aprendi a recear o que vem dos outros. E já não me chega o sorriso dos meus filhos. Percebi que preciso de mais. Preciso de mim. Preciso de despejar o peso que trago às costas, sem pudor, sem medo, sem a pretensão de querer mudar o mundo e ser super.

Ser super é só alimentar a imagem da perfeição. Modalidades à parte, ninguém acredita na perfeição. Todos nós conhecemos aquela pessoa tão mas tão perfeita que estamos sempre a tentar perceber o segredo cabeludo que irá revelar afinal a grande besta por trás do coordeiro.

Já tenho reflectido sobre isto, não é de agora. Cada vez mais tenho a certeza que não quero ser super, como não quero ser uma grande cabra. Não é pela negação que procuro o equilíbrio é pelo meu bem-estar. E a partir de hoje e depois de sentir novamente o meu corpo ceder ao peso que carrego às costas, decidi que quero apenas ser feliz.

O problema de querermos fazer estas limpezas e seguirmos apenas o perfume que nos equilibra, é que no final percebemos que não temos mais espaço para o que nos magoa. E isso é bom.

Eu, com 20 anos, e ainda a ignorar o peso que iria suportar para a vida.]

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