segunda-feira, 8 de maio de 2017

Cartas de amor

Quem me lê sabe que escrevo por terapia. Quem me lê sabe que o fazia em papel desde que me lembro de escrever, não estou preocupada com o público, se usam saia ou calças, bigode ou moram na Rússia.

Gosto de cartas de amor. Sempre gostei.
Escrevi muitas. Recebi muito poucas. Talvez porque tenha sempre atraído para mim o oposto do que realmente sou.
Toda eu sou coração e quando a cabeça opera mais vezes que o coração, não sou eu, são os outros por mim.

Na semana passada encontrei alguém que me disse que estava cansada. Que a vida lhe estava a roubar as forças e que na maioria dos dias vestia o pijama, atava o robe e deixava-se estar, entregue a si, em casa. Vesti com​ ela o pijama e deixei-me estar. Cansada também de ouvir que "Só recebemos aquilo que conseguimos aguentar". Não. Recebemos na maioria das vezes o impossível e esquecemo-nos de dizer "obrigada" e "desculpa".

Sim, as coisas más também se agradecem, porque servem para nos fazer crescer ou para nos mostrar novos caminhos. E as desculpas evitam-se mas sabendo que já as fizemos, dizem-se vezes sem conta até o coração serenar.

Escrevo porque é aqui que me encontro. Que me liberto e me curo. Tenho estado mais ausente aqui, tento escrever noutros lados. É o reverso de ser "lida". Quando as dores são mais fortes e não queremos que nos vejam chorar temos de usar novamente o papel, o lápis e a borracha, temos de nos procurar, encontrar e amar. Temos de nos escrever cartas de amor.

Porque antes de amares o outro tens de te amar a ti. Sempre, sem mas. Sem afastamentos e sem lágrimas. Tens de te amar todos os dias. Diz que te amas, e que está tudo bem. Diz que não precisas de procurar o que tens dentro de ti.

Na semana passada o João escreveu uma carta para mim. Colocou num envelope, fechou e disse que era para eu abrir no dia da mãe.
Abri na sexta-feira, dia em que chegaram os dois da escola e me ofereceram as prendas, para abrir logo sem esperas.

Abri a carta do meu filho e percebi que era uma carta de amor. O João aprendeu a escrever agora. Dá erros e é trapalhão. O João escreveu-me uma carta de amor e eu senti o meu coração dilatar. Cheio de um amor profundo e puro.

Ali, encontrei-me em cada palavra. Em cada suspiro. Não foi um texto copiado do quadro, certinho e sem erros de português. Foi um texto que veio de dentro e que me fez recordar uma Joana com 6 anos e cheia de vontade de escrever cartas de amor com canetas coloridas.

Dizem que o amor não se agradece. As mesmas pessoas que dizem que as desculpas não se pedem, e que só recebemos na medida que conseguimos aguentar.

Hoje agradeço, agradeço o amor que cultivo diariamente no meu coração e que consigo transmitir ao meu filho para que ele possa crescer a escrever cartas de amor, sempre.

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