terça-feira, 27 de junho de 2017

As lágrimas que nunca chorei

Às vezes tenho saudades do tempo em que este espaço era apenas diário.
Em que não era "lida" dos Estados Unidos à Rússia mas lavava a alma.

Às vezes tenho saudades de libertar a dor que sinto quando me sinto a morrer, quando tento gritar e ninguém me ouve. Quando tento falar e do outro lado encontro apenas um muro. É isso um muro.

Às vezes gostava apenas de ser tratada como trato os outros. Assim, espelho, pedra por pedra. Porque o cansaço de ser tapete onde os outros limpam os pés é imenso e um dia transborda.

Às vezes apetece-me apenas fechar os olhos e chorar. Chorar as lágrimas que nunca chorei, limpar a alma da sujidade que se entranhou e que me faz sentir quem eu não sou.

Ter saudades de nós é olhar para os outros e sentirmo-nos diferentes, às vezes até indiferentes.

Às vezes pedes ajuda com um gesto, um olhar. Dizes aos outros que queres um copo de água e do outro lado alguém ouve apenas que não encontras o copo. O copo que transbordou ainda o dia estava a amanhecer e agora, quando a noite cai já não importa se tens sede ou se o copo se partiu.

Há uma falsa paz em todo o mar sereno. Há uma falsa tranquilidade a cada pôr-do-sol. Há uma melodia chorada no chilrear de cada passarinho que nasce. E isso não é poesia, nem conto de fadas. É a vida. É o dia-a-dia. É a certeza que viver é sentir na pele o sabor salgado das lágrimas que nunca chorei.

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