domingo, 3 de dezembro de 2017

Dezembro chegou

Espero sempre por dezembro como o salvador da pátria. Às vezes espreito pelo nevoeiro e até me parece ver D. Dinis, intacto como se tivesse saído apenas para comprar pão.

Dezembro trouxe-me o primeiro filho. O meu menino Jesus. Um sonho depois de muito sofrimento, por isso Dezembro lembra-me o cheiro quente de um bebé que parecia moreno e se transformou no meu bunny blue, sem miráculos nem falcão traça, mas muitas forças para combater (desculpem os que não seguem as séries Infanto-juvenis).

Quero sempre acreditar que há uma força invisível que me traz à superfície em dezembro. Mesmo quando os monstros te perseguem e te desorientam. Mesmo quando pareces perder o norte, há uma estrela que me guia. Talvez a que tenha partido num dezembro frio com a certeza de ser mortal e com a convicção que as lutas se fazem na terra.

Daqui a 3 semanas é natal. Tenho 3 filhos maravilhosos que sabem de cor o meu cheiro e reconhecem o meu olhar por entre a multidão. Não interessa a condição física, a idade ou se estão doentes, interessa a magia que é tê-los por perto. E mesmo no meio da crise, isso é realmente natal.
Não interessa onde vais estar nessa noite, que se quer em família, mesmo quando os outros te tentam destruir todos os dias mais um pouco. Tens o principal contigo e dentro de ti e não há embrulho mais perfeito do que esse.

Começo dezembro agarrada à máquina de costura, costuma ser boa conselheira, mesmo que a noite te deixe a visão turva e a linha teime em não entrar na agulha.

Não vivo com muito. O suficiente, para os meus filhos não terem frio nem fome. Recuso ser barriga de aluguer das ideias dos outros, e continuo a ser  produtiva para quem realmente sou necessária.

Vivo num país com leis que os outros insistem em romper, com punhais disfarçados de sinceridade. Mas na roda da vida, deixo o veredicto para o juízo final.

E ouço a música:
"entre a chuva dissolvente
No meu caminho de casa
Dou comigo na corrente
Desta gente que se arrasta
(...)
E o que foi feito de mim?"


A árvore de natal já está feita, há luzes a piscar enquanto cantamos as músicas de sempre. Não há presentes comprados, não há calendários do advento nem desejos de algodão, mas estamos nós, de pé ou a reerguer o que sobrou.

No último dia de novembro, ainda entre a confusão e o choque. O choro abafado pelo sorriso do meu filho e pela companhia mais que perfeita, olhei para o céu e vi centenas de tsurus.


Nesse dia prometi que iria construir um exército deles. Porque a sonho pode realmente combater o mundo cinzento que insiste em derrubar.

"Já sei que hei-de arder na tua fogueira Mas será sempre sempre à minha maneira
E as forças que me empurram
E os murros que me esmurram
Só me farão lutar
À minha maneira
À minha maneira.
Por esta estrada
Por este caminho à noite
De sempre
De queda em queda
De passo a passo
Andando
P'ra frente"

Passei o fim-de-semana a ouvir Xutos e a lembrar memórias. Memórias, cheiros e sítios e pessoas que é o que a música nos dá.
Olá Dezembro, traz-me o que tanto preciso. Não quero nada caído do céu, como a chuva desejada, quero apenas o retorno de todo o meu esforço.
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A árvore de natal de 2015. Gosto de árvores diferentes, mas quando tenho bebés por perto, a imaginação tem mesmo de funcionar. Obrigado a quem me ajuda a realizar os sonhos.

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