segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Quem nunca?

No sábado de madrugada acordámos em sobressalto com o João a vomitar.
Deviam ser 2h da manhã ou qualquer coisa do género.
Quando cheguei ao quarto deles e vi "aquele cenário" nem sabia bem por onde começar.
O João a chorar e assustado (quando os miúdos vomitam ficam sempre assustados).
A Maria Rita toda acelerada e chateada "o João vomitou a nossa caminha".
O José passou ao lado do terramoto e continuou a dormir, felizmente. Ele que tinha levado quatro vacinas na quinta-feira e na sexta-feira também se fartou de vomitar enquanto eu conduzia a caminho da escola dos irmãos.

Muitos devem pensar "mama cabra, quiseste filhos agora aguenta!". Mas lamento dizer-vos, que quando temos filhos e dizemos aquelas coisas "só queremos que tenham saúde" é a mais pura das verdades.

Sabemos porém, que ter filhos e passar por situações de doenças faz parte do pacote. Assim como as sogras ou a família do outro. Lembro-me sempre de uma colega de faculdade que não gostava de arroz de ervilhas e catava uma a uma, mesmo quando lhe dizia que "as ervilhas eram como os pintelhos, por mais que arrumes vai sempre algum!".

O João passou o fim-de-semana a lamber as feridas, sem sair de casa e a fazer puzzles que recebeu no aniversário e no natal.

O problema aqui é conciliar as várias faixas etárias e gerir cenas da vida doméstica. Porque nem sempre o trabalho de equipa acaba bem.

O João começa o puzzle espalhando as peças em cima da mesa da sala. E a Maria Rita trepa para as cadeiras porque também quer "jogar". Mas rapidamente começa a deixar cair as peças ao chão e o José a apanhar do chão e a meter à boca.
O que vem a seguir é tudo menos bonito mas também é um ciclo. O ciclo de quem grita mais ou mais alto.

É aqui que todas as mães passam a ser crentes e a fazer orações secretas para que Deus as ouça. Entre outras coisas pedimos para os filhos estarem bem de saúde, comam bem, durmam melhor e não gritem. Acrescentamos uma enorme ovação de gratidão por cada minuto em silêncio e por cada ida à casa de banho sem levar com uma das crianças a fazer acrobacias ou a tentar enfiar o piaçaba na boca.

Aprendemos que a ração seca dos gatos pode ser muito nutritiva (para quê gastar dinheiro em bolachas se podem comer todos da mesma gamela?). Desejamos lá no fundo que o fim-de-semana acabe rápido e fazemos juras que vamos planear ementas semanais para que tudo corra plenamente, as manhãs ao som de anjos a cantar e sempre pontuais e os finais de tarde sem birras e com refeições equilibradas.

Eu gosto de dizer que a minha fé tem aumentado na proporção do número de filhos. Desculpa-me Deus, mas para me sentir boa mãe entrego-te a ti a capacidade de proteger os meus filhos. Porque depois deles saírem de dentro de mim percebo claramente que nunca vou conseguir impedir que sofram. Posso tentar minimizar mas só mesmo isso.

E ser mãe é agir com o coração, por tentativa e erro e a tentar não enlouquecer.
Umas conseguem outras não. Na maioria todas somos muito imperfeitas, nem todas demonstram da mesma forma e nem todas fazem a mesma merda.

Algumas protegem tanto os filhos que os sufocam. Outras desabam mal o termometro marca 37°C de temperatura rectal. Outras fazem questão de lhes fazer os trabalhos de casa só para não chatear as crianças.

Todas enlouquecemos. Nem todas demonstramos. Nem todas ficam despenteadas. Nem todas lixam as amigas. Nem todas se enfiam na escola dos filhos a massacrar a professora ou a lamber as botas à directora. Mas todas choramos. Todas rezamos mesmo quando não sabemos. Todas tentamos proteger as crias.

E se isto nos devia unir, devia (como na natureza que até há espécies que se juntam e tomam conta das crias umas das outras), mas a verdade é que nos separa cada vez mais. Porque passam mais tempo a demonstrar do que a ser. Porque conta mais as aparências do que na realidade se passa no coração, dos nossos (mães) e dos deles (filhos).

E é nestas alturas em que me apetece soltar um grande palavrão e dizer sejam mais pessoas e menos máquinas. Porque às vezes ser pessoa é viver descontrolada mas respirar e respeitar.

Quem nunca?

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